Ao menos 35 baleias de barbatana mortas encalharam no Ceará desde 1997, segundo levantamento da Organização Não Governamental (ONG) Aquasis. Do total, 26 eram baleias-jubarte, espécie que migra para o litoral brasileiro entre julho e novembro durante a temporada reprodutiva.
O levantamento ganhou um novo registro nessa quinta-feira (17), quando uma baleia-jubarte macho, de aproximadamente 13 metros, foi encontrada morta na praia de Redonda, em Icapuí, no Litoral Leste. Na tarde anterior, moradores haviam informado à Aquasis sobre a carcaça, que estava a cerca de 3 quilômetros da costa.
Este é o terceiro encalhe de baleia registrado no Ceará em 2026. Em 20 de agosto, uma baleia-minke de cerca de 6 metros foi encontrada morta na praia de Piriquara, em Paracuru. Já em abril, uma baleia-piloto foi localizada na praia de Pontal de Maceió, em Fortim.
Por que há mais encalhes entre julho e novembro?
De acordo com a Aquasis, o período coincide com a temporada reprodutiva das baleias-jubarte. Os animais deixam as águas da Antártida e seguem para regiões mais quentes do litoral brasileiro para acasalar e ter filhotes.
Nesse período os animais vem para acasalar e, as fêmeas que ficaram grávidas no ano anterior, para ter seus filhotes em águas mais quentes e com menos predadores. Em geral, a área de reprodução se estende até o litoral sul do Rio Grande do Norte, com maior concentração no Banco dos Abrolhos, na Bahia
A presença das jubartes aumenta, portanto, a possibilidade de registros da espécie no litoral cearense. O encalhe, porém, pode ter diferentes causas. No caso do animal encontrado em Icapuí, ainda não foi possível determinar o motivo da morte.
No entanto, Vitor Luz Carvalho afirma que, com a presença dos animais na costa e o aumento populacional nas últimas décadas, a mortalidade de alguns indivíduos pode ocorrer por causas naturais, como doenças e ataques de predadores, ou por fatores humanos, como emalhe em redes de pesca e atropelamento por grande embarcações, que vem se tornando cada vez mais comuns. Segundo o Instituto Baleia-Jubarte, esse encalhe é o 56° ocorrido no Brasil nessa temporada.
A equipe da Aquasis informou que pretende coletar amostras biológicas e investigar possíveis causas para o encalhe. A retirada da carcaça depende de maquinário adequado e das condições de maré e do local.
Ossada de baleia do Ceará foi parar no Museu Nacional
Os encalhes também já deram origem a iniciativas de preservação e pesquisa fora do Estado. Em 2020, a ossada de uma baleia-cachalote encontrada morta em Aquiraz foi destinada ao Museu Nacional, no Rio de Janeiro.
O animal tinha cerca de 9 metros e havia sido enterrado na praia de Barro Preto. A ossada foi escolhida para substituir a de uma baleia-jubarte que fazia parte do acervo do Museu Nacional e foi destruída no incêndio de 2018.
Antes disso, outra cachalote, encontrada na Praia da Baleia, em Itapipoca, teve a ossada preparada para integrar o acervo do Museu da Baleia (MUBA), na própria região. O animal havia encalhado em 2011 e foi enterrado por pesquisadores antes de ser removido anos depois.
Cuidados com animais encalhados
Professor do Departamento de Patologia e Medicina Legal, da Faculdade de Medicina da UFC, Carvalho reforça que, qualquer cadáver de animal representa um risco para a saúde pública, pois pode abrigar patógenos capazes de causar infecções em seres humanos (zoonoses) através do contato com sangue, secreções e tecidos. Além disso há grande proliferação de microrganismos com progresso do processo de decomposição.
"Numa carcaça de baleia, que pode pesar toneladas, além do risco de contaminação por contato há também os riscos de contaminação do solo e da água no entorno, razão pela qual os órgãos públicos devem apoiar o descarte adequado", orienta. Por isso, Carvalho orienta que os profissionais que atuam nesses casos de encalhes precisam usar EPIs para se proteger.
Baleia encalhada em 1997 virou atração na praia de Arpoeiras
Em 1997, uma baleia-jubarte encalhou em estado de decomposição na praia de Arpoeiras, em Acaraú. A presença do animal atraiu moradores e turistas durante vários dias e transformou o local em ponto de curiosidade, apesar do forte odor provocado pela putrefação.
Segundo relatos da época, algumas pessoas chegaram a retirar partes da gordura da baleia para produzir o tradicional óleo de banha, ao qual era atribuída a propriedade de aliviar dores provocadas pelo reumatismo.
Após a retirada da carcaça, a ossada também foi recolhida. Conforme relatos, foram necessárias duas viagens de um caminhão de médio porte, modelo D-40, para transportar os restos do animal.