Uma família chamada Alencar
Grande José Roberto, genealogista-memorialista notável... que bom saber do lançamento da edição impressa de Vida e Bravura origens e genealogia da Família Alencar, aí em Fortaleza, dia 10 de novembro, no Dragão do Mar.
O li com um caju na boca, caro primo, maravilhado com suas descobertas, já agora nossas. Livro familiar, mas nem tanto. Tantos velhos e novos parentes vivificados por você, graças ao destemor e ao lavor da apaixonada pena, tudo para nos revelar os nossos letrados do algodão, estes rudes fazendeiros dos desertos viçosos do Ceará e do mundo e que um dia viveram com arte e desespero, e que hoje bem mais sabemos, graças à sua dedicação e pesquisa, um trabalho mesmo de Hércules.
Genealogia artística, no melhor sentido científico, muitos dirão, pois você, José Roberto de Alencar Moreira, conseguiu ser todos nós com esta sua genealogia familiar universal. Pura arte.
Um primo e definitivo livro. Lindo livro. Imaginem: do autor à Idade Média, pelas vilas portuguesas, como talvez um judeu errante, ele andou, destinando glórias, apegando-se à independência da terra, lutando pela boa nacionalidade, pela liberdade que é a grande arte, a construir esta verdadeira e enganosa literatura familiar. Eis aí os nossos militares ilustres, os vossos militares, que se foram e que ainda hoje estão aí, nesta Fortaleza da fortaleza que martirizou Bárbara de Alencar, e todos os nossos (e vossos) autodidatas notáveis, como Tristão de Alencar Araripe, primeiro presidente da República do Brasil, e que um dia ainda vai ser nome de Avenida em Fortaleza -, e as nossas (e vossas) sábias mulheres de poucas leituras, mas de coração letrado e favor aceso, como Bárbara de Alencar, nossa amada avó heróica, a mais pura das nossas libertações e a quem o Ceará e o Brasil por mais que o façam ainda o devem, e muito. Sim, seu livro é este outro Brasil, que José de Alencar inventou (com personagens que viraram gente) e que todos nós amamos. E tantos outros, nossos e vossos Alencares. Ad fomento Iusticia.
Justiça para com Araripe Júnior, hoje tão esquecido, é isto que seu livro é.
Esquecido País sem gastos na educação, na cultura e nas artes. Cansadas Minas do Rei Salomão. Brasil que seu livro mente e desmente, tal o fervor do seu engenho, e a sua boa vontade e desapego. Tão diversos dos atuais bancos oportunistas, que erguem edifícios de pouca cultura e grande discriminação para com os puros de coração, artistas e cientistas, heróis e heroínas - e que sua história revela, com vida e bravura, vero tapete mágico de famílias entrefiadas de amores, fraquezas, desencontros, barbas e soberbas, tudo mistério e brilho original. Renascentismo. Brilhantes ilustres e anônimos brilhantes, simples pessoas simples, de lugares esquecidos e que vão vivendo pelas aldeias de Portugal, vidas esquecidas, impulso e determinismo, este, o de ir para chegar ao Brasil, e redescobrir o Brasil, e até voltar a Portugal, desde os 700, desde talvez os 500 e daí numa sucessão de vidas hipotéticas e nada irreais, vidas ressuscitadas por pura magia e encantamento.
Um livro raro, de gênero e alma rara. E aqui eu me pergunto por que? Acho que é amor. Amor difícil, digo. Fácil como uma nave supersônica que voltasse a Portugal e daí às terras do álamos miscigenados pelos árabes da Etiópia, e Eritréia, que aqui chegaram do céu, e que formaram a Família Alencar (e quase todas as outras, pois que eu vim da China) - e tudo regado a puro Crato, Pernambuco e Piauí, Bahia e Freixeiro de Soutello, Régua e Lamego. E São Salvador.
Um livro de família? Duvido muito.
Em tempo: completa o livro, com fecho de ouro, a mais completa e atualizada genealogia da Família Alencar, de autoria de Raidson Jenner Negreiros de Alencar.
E que tudo que dito acima também a ele se credite.
Oscar Araripe
Pintor e escritor, ex-jornalista do Jornal do Brasil e do Correio da Manhã