Filha de Maria da Penha fala sobre o impacto da violência doméstica nos filhos das vítimas

Livro de Cláudia Fernanda Veras, em campanha de financiamento coletivo, tece um relato pessoal a partir de uma dor coletiva

Escrever sobre a dor de testemunhar a violência doméstica promoveu um encontro de Cláudia Fernanda Veras consigo mesma. Filha de Maria da Penha, ela relata que saiu de um lugar aprisionador e sufocante ao colocar os sentimentos em palavras e, assim, restaurar a figura paterna após o crime cometido em maio de 1983, que deixou a mãe paraplégica.

Os detalhes dessa triste experiência, responsável por marcar toda uma vida, estão presentes em “Sou Filha da lei, sou filha do Rei”, autobiografia de Cláudia sobre as memórias de tudo o que ela passou na infância e que perdurou na fase adulta – abarcando, portanto, desde a noite da violência contra Maria da Penha até o momento no qual a autora sente que passou a encarar os traumas íntimos. 

O livro está em campanha de financiamento coletivo até 26 de dezembro na plataforma Kickante. Ao Verso, Veras explica que todo o relato é escrito em primeira pessoa, trazendo reflexões sobre o quanto as vivências do passado, sobretudo na infância, determinam o modo como enxergamos a nós mesmos e ao outro.

“Falo sobre a importância da paternidade e da maternidade na formação da identidade da criança e, mais especificamente, abordo a realidade das famílias que vivem uma situação de violência doméstica. Explico que, quando o pai é violento ou omisso, automaticamente a mãe encontra-se deficiente em sua função”, contextualiza.

Não à toa, a tônica da obra sob sua assinatura é situar o impacto das violências ocorridas dentro de casa nos filhos das vítimas, tema ainda pouco explorado. Quando questionada sobre como o lamentável episódio envolvendo a mãe repercutiu na forma de ver e estar no mundo – não apenas enquanto filha, mas também enquanto esposa e mãe de três meninas – a autora novamente volta o olhar para a infância, alicerce da existência.

Conforme observa, os pequenos não têm capacidade de ler uma cena por completo. Aquilo que percebem e guardam são emoções despertadas em determinadas situações. Assim, uma criança crescida num lar disfuncional, pautado pela dor, imprime no coração sentimentos que contradizem quem de fato ela é, algo que mina as possibilidades de ela se ver digna de valor.

“Sendo uma criança de 4 anos e 9 meses na época do crime, as diferentes situações que vivi depositaram em mim a dor da rejeição, do abandono, da menos valia, do não merecimento, da culpa, do medo”
Claudia Fernanda Veras

Vítimas invisíveis

O virar da chave aconteceu justamente devido ao mergulho sem amarras na trajetória de si e de outros na mesma situação, processo ocorrido a partir de 2017. À época, Cláudia participou de um evento cristão capaz de mudar as próprias perspectivas e fazê-la volver um olhar mais demorado sobre as coisas que lhe afligiam o peito. A experiência está narrada no livro.

Por outro lado, ultrapassando o componente puramente pessoal, uma fonte utilizada para a escrita da obra foi a pesquisa realizada pelo Instituto Maria da Penha em parceria com a Universidade Federal do Ceará (UFC). Em um dos relatórios, consta que “as crianças expostas à violência no início da vida são susceptíveis de reexperimentar ou repetir a violência como comportamentos aprendidos ou reforçados nas suas relações íntimas”.

Em suma, a máxima “violência gera violência” pode ser interpretada como “violência no lar dos pais gera violência no lar a ser formado pela criança quando estiver adulta”. “Contudo, algo que despertou minha atenção foi a aproximação natural de algumas pessoas cujos comportamentos reafirmavam a existência de dores tão devastadoras quanto as que um dia estiveram em mim. Isso afirmou no coração que a minha história não era somente minha”.

Sublinhando que as mulheres estão em iminente risco de morte e, por isso, o socorro emergencial deve ser voltado para elas – alvo das agressões – a autora igualmente destaca a realidade dos filhos dessas mulheres, feito ela. Para Cláudia, são vítimas invisíveis da violência doméstica, embora não menos atingidas por essa chaga.

“Eu sou prova disso! E quero trazer esperança para os filhos e filhas que ainda hoje – já homens e mulheres tendo suas próprias famílias, constituídas ou não – se encontram presos num passado de dor”, torce. Ainda que imersa nesse sentimento de mudar as coisas, ela não esconde o desafio de mexer no que havia em si durante o processo de cura da alma.

Ser filha de Maria da Penha

Veras abriu cada uma das caixas do nível consciente e outras que nem mesmo lembrava de existir. Uma a uma – dor por dor, lembrança por lembrança – a autora foi sendo exposta, tocada e espremida, até que cada ferida fosse substituída por uma cicatriz. “Hoje, sou completamente livre para falar de cada uma delas, sem dor e sem tristeza, porque sei o que aconteceu dentro de mim”, afirma.

“O processo não foi fácil. Vivi momentos em que tudo o que eu mais queria era desistir. Cheguei a pensar que não ia aguentar, tamanha era a dor que emanava do meu ser. Entrei em depressão durante esse período. Mas quando as minhas forças se esvaíram, Deus me segurou pela mão e me disse, ‘A minha graça te basta. E o Meu poder se aperfeiçoa na sua fraqueza’. Eu persisti e decidi continuar". 

Referenciando-se como privilegiada por ter uma mãe tão inspiradora, admirável e que marcou uma geração – Maria da Penha se tornou símbolo nacional de combate à violência contra mulher, sobretudo a partir de 2006, quando o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva sancionou a Lei n. 11.340, que leva o nome dela – Cláudia ainda conta no livro o antes, o durante e o depois da criação dessa norma legislativa, agora sob a perspectiva de uma das “filhas da Lei”. Um relato pessoal, embora infelizmente comum a muitas famílias.

“Se a minha história de superação, perdão e liberdade mudar a vida de uma única pessoa, já valeu a pena. Porque essa pessoa mudará a história de sua família e de uma descendência. É algo muito maior do que podemos imaginar”, estima, considerando ainda não ter noção de onde esse movimento de ressoar a mensagem do livro vai chegar.

Serviço

Campanha para financiamento do livro “Sou Filha da lei, sou filha do Rei”,
de Cláudia Fernanda Veras, filha de Maria da Penha
Até o dia 26 de dezembro na plataforma Kickante, neste link

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