"Quando Alice entrou na toca, num buraco já caiu. Um poço muito profundo onde o Coelho sumiu. Caindo, viu nas paredes: armários, estantes, redes, mapas, quadros também viu". Com esses versos, o poeta e cordelista pernambucano Josué Limeira narra as aventuras que Alice encontra no País das Maravilhas.
A adaptação de Lewis Carroll ganha cor e diversão, com sotaque nordestino e ritmo da poesia popular.
Ao escutar sua irmã ler um livro sem diálogos nem gravuras, ela não fica entediada, mas "amuada". E ao ouvir o Coelho falar, ela não se surpreende, mas fica "encafifada" e nem "pestaneja" antes de correr atrás dele, rumo à toca e ao País das Maravilhas.
Essa é a riqueza que vem com uma nova adaptação. Ela concede ao leitor a possibilidade de encarar uma obra, já vista tantas vezes, com novos olhares e perspectivas.
A releitura abre outros caminhos, lança luz sobre certos detalhes, enquanto outros se ressignificam sob essa nova lente.
Josué mergulha na diversidade e na beleza da língua portuguesa, abraçando o vocabulário que escutou na infância para dar corpo ao cordel. A Lagarta tem um parafuso frouxo, e o Chapeleiro não demonstra fraqueza.
Alice é essa jovem que não quer causar intriga nem rebuliço. E ao encontrar o Gato, a quem chama de Bichano de Cheshire, percebe: "é um gato camarada".
Quando o cordel e o clássico se cruzam
A escritora, desenhista e mestra em Educação pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Karina Silva, avalia que "o cordel tem essa beleza rara de ser, ao mesmo tempo, erudito e popular".
"É ritmo, é rima, é uma forma de manter a alma acesa (...) E, quando a poesia de Josué Limeira encontra a lógica maluca de Carroll, algo mágico acontece: Alice ganha novo sotaque, novo compasso e novo cenário", lista.
Ilustrações inspiradas na xilogravura nordestina
Se a escrita já encanta pela métrica nordestina e pelas palavras que dançam como cantigas, as ilustrações de Vladimir Barros se destacam como parte essencial da experiência do livro, conforme observa Karina Silva.
Vladimir, que também é pernambucano, é formado em Design e chegou a vencer prêmios como o Brasil Design Award.
Ele ilustrou outras obras que Josué Limeira adaptou, incluindo:
- O Pequeno Príncipe em Cordel;
- A Revolução dos Bichos em Cordel;
- Vidas Secas em Cordel.
Em suas ilustrações, ele demarca as características regionais de sua cultura. Assim, cangaceiros, mestres da cultura, artesãos e sertanejos inspiram os desenhos.
Alice caminha com seu chinelo de dedo e uma bolsinha de couro.
A Duquesa carrega um porquinho e tem traços indígenas, enquanto o Chapeleiro Maluco toca um pandeiro e usa chapéu com fitas, flores de chita e cordões.
Ao dedicar o livro à sua mãe, Vladimir revela que dela herdou o amor pela cultura.
"Você me ensinou que o mundo pode ser devorado e devolvido com a nossa cara, nossa cor, nosso chão", escreveu.
E hoje, também por ela, ele abraça e espalha tudo o que há de belo em suas paisagens.
Serviço
Livro "Alice no País das Maravilhas em Cordel"
Quanto: R$ 69,80
Onde comprar: Editora Yellowfante.