Alice no País das Maravilhas ganha vocabulário nordestino em adaptação de escritor pernambucano

Livro de cordel de Josué Limeira conta com ilustrações de Vladimir Barros, inspiradas na xilogravura nordestina.

Escrito por Beatriz Rabelo beatriz.rabelo@svm.com.br
21 de Julho de 2026 - 21:39
capa da noticia
Legenda: A releitura se mantém fiel ao enredo original de Lewis Carroll.
Foto: Divulgação/Editora Yellowfante.

"Quando Alice entrou na toca, num buraco já caiu. Um poço muito profundo onde o Coelho sumiu. Caindo, viu nas paredes: armários, estantes, redes, mapas, quadros também viu". Com esses versos, o poeta e cordelista pernambucano Josué Limeira narra as aventuras que Alice encontra no País das Maravilhas.

A adaptação de Lewis Carroll ganha cor e diversão, com sotaque nordestino e ritmo da poesia popular.

Ao escutar sua irmã ler um livro sem diálogos nem gravuras, ela não fica entediada, mas "amuada". E ao ouvir o Coelho falar, ela não se surpreende, mas fica "encafifada" e nem "pestaneja" antes de correr atrás dele, rumo à toca e ao País das Maravilhas.

Essa é a riqueza que vem com uma nova adaptação. Ela concede ao leitor a possibilidade de encarar uma obra, já vista tantas vezes, com novos olhares e perspectivas.

A releitura abre outros caminhos, lança luz sobre certos detalhes, enquanto outros se ressignificam sob essa nova lente.

Josué mergulha na diversidade e na beleza da língua portuguesa, abraçando o vocabulário que escutou na infância para dar corpo ao cordel. A Lagarta tem um parafuso frouxo, e o Chapeleiro não demonstra fraqueza.

Alice é essa jovem que não quer causar intriga nem rebuliço. E ao encontrar o Gato, a quem chama de Bichano de Cheshire, percebe: "é um gato camarada".

Quando o cordel e o clássico se cruzam

A escritora, desenhista e mestra em Educação pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), Karina Silva, avalia que "o cordel tem essa beleza rara de ser, ao mesmo tempo, erudito e popular".

As gravuras e os personagens do livro são inspirados em figuras nordestinas.
Legenda: As gravuras e os personagens do livro são inspirados em figuras nordestinas.
Foto: Beatriz Rabelo.

"É ritmo, é rima, é uma forma de manter a alma acesa (...) E, quando a poesia de Josué Limeira encontra a lógica maluca de Carroll, algo mágico acontece: Alice ganha novo sotaque, novo compasso e novo cenário", lista.

Ilustrações inspiradas na xilogravura nordestina

Se a escrita já encanta pela métrica nordestina e pelas palavras que dançam como cantigas, as ilustrações de Vladimir Barros se destacam como parte essencial da experiência do livro, conforme observa Karina Silva.

Vladimir, que também é pernambucano, é formado em Design e chegou a vencer prêmios como o Brasil Design Award.

Ele ilustrou outras obras que Josué Limeira adaptou, incluindo:

  • O Pequeno Príncipe em Cordel;
  • A Revolução dos Bichos em Cordel;
  • Vidas Secas em Cordel.

Em suas ilustrações, ele demarca as características regionais de sua cultura. Assim, cangaceiros, mestres da cultura, artesãos e sertanejos inspiram os desenhos.

Alice caminha com seu chinelo de dedo e uma bolsinha de couro.

A Duquesa carrega um porquinho e tem traços indígenas, enquanto o Chapeleiro Maluco toca um pandeiro e usa chapéu com fitas, flores de chita e cordões.

Ao dedicar o livro à sua mãe, Vladimir revela que dela herdou o amor pela cultura.

"Você me ensinou que o mundo pode ser devorado e devolvido com a nossa cara, nossa cor, nosso chão", escreveu.

E hoje, também por ela, ele abraça e espalha tudo o que há de belo em suas paisagens. 

Serviço

Livro "Alice no País das Maravilhas em Cordel"
Quanto: R$ 69,80
Onde comprar: Editora Yellowfante.