Profissão: não existe uma escolha errada

A psicóloga Roberta Maria Fernandes Cavalcante fala sobre o processo de escolha profissional, fatores que influenciam e estratégias que auxiliam a tomada de decisão de carreira.

Roberta Cavalcante
Roberta Cavalcante: mercado de trabalho, escola e família são fatores que influenciam na escolha da carreira. Bruno Bressam

A escola, os pais, os amigos, o mercado e até a economia do Brasil podem influenciar na decisão da carreira. Em meio a dúvidas, medos e incertezas está aquele jovem prestes a deixar a vida escolar e ingressar no novo mundo da Universidade. “Como fazer a escolha certa?”, ele pode se perguntar. “Na verdade, não existe uma escolha errada nem uma escolha certa”, afirma a psicóloga Roberta Maria Fernandes Cavalcante, professora do curso de Psicologia da Universidade de Fortaleza (Unifor), Doutoranda em Psicologia Social pela Universidade John F. Kennedy (Argentina). “Precisamos desconstruir essa questão que o jovem traz de fazer uma escolha errada e achar que a profissão é para a vida toda”, argumenta.

Nesta entrevista exclusiva ao Diário do Nordeste, a orientadora profissional e de carreira analisa os mitos e as maiores dificuldades na hora de decidir um curso superior e como os jovens podem sair dessa fase de indecisão.

Diário do Nordeste: Escolher a carreira é mais difícil para os jovens de hoje do que para as gerações passadas? 
Roberta Maria Fernandes Cavalcante: Hoje temos muitos desafios. Além da competitividade e das exigências do mercado, temos uma grande diversidade de cursos, fazendo com que os jovens apresentem dificuldades nesse processo de escolha profissional. 

Qual é a maior dificuldade dos jovens na hora de escolher a carreira? 
Os jovens escolhem muito cedo em nossa cultura e apresentam, muitas vezes, uma imaturidade em fazer essa escolha. Outra questão também importante de se colocar é o fato de o jovem querer antecipar o futuro, saber se vai ter sucesso, se vai ser bem sucedido na profissão que escolher e hoje se preocupam bastante com o retorno financeiro que terão com a profissão escolhida.

Que fatores influenciam e ajudam o jovem na descoberta da sua escolha profissional? 
Percebemos que alguns fatores têm interferido na escolha profissional dos jovens, como o mercado de trabalho, a escola, a família, a representação social das profissões, o fator financeiro, a política de um País e os fatores motivacionais (subjetivos).

Família é o fator que mais tem interferido no processo de escolha profissional, devido as suas expectativas e desejos frente as escolhas dos filhos. 

jovem indeciso com a carreira

Testes vocacionais são uma boa estratégia? 
A orientação profissional enquanto prática de intervenção começou com uma grande  influência da psicometria, em que a escolha profissional era focada na avaliação, no diagnóstico. Essa prática era centrada no resultado. Hoje percebe-se que a escolha profissional é centrada no processo de escolha, em que o jovem é o sujeito da sua escolha em que precisará refletir, ter clareza dos determinantes que podem estar interferindo na sua escolha profissional, buscar conhecer a si mesmo e a realidade ocupacional. Os testes vocacionais são instrumentos fidedignos, científicos que o psicólogo pode usar dentro do processo de escolha profissional. Temos também uma diversidade de técnicas, atividades gráficas, projetivas que também podem ser usadas no trabalho de orientação profissional. Então os testes psicológicos são recursos que podemos utilizar dentro do processo, mas não é o resultado do teste, necessariamente, que vai dizer que profissão o jovem daria, até porque nenhum teste consegue resolver os conflitos que podem estar gerando insegurança em torno da questão da escolha profissional. 

Se o estudante tem vários interesses e habilidades, o que considerar na hora de escolher a formação? 
No processo de escolha, o orientador profissional trabalha o autoconhecimento, levando o jovem a se apropriar dos interesses, das habilidades, das aptidões, dos valores, das crenças, daquilo que é importante para ele. E se o estudante apresenta uma diversidade de interesses e habilidades, podemos verificar com ele o que mais o identifica, o que é mais forte no jovem e estabelecer critérios, de forma que facilite o seu processo de escolha.

Como lidar com tantas opiniões sobre o que o adolescente deve escolher como profissão?
O adolescente está no momento de vida e atravessando muitas mudanças em sua identidade. Ele pode e deve manter um diálogo com as pessoas em que confia. Essas pessoas podem ser: a família, os amigos ou profissionais que podem interferir junto aos jovens.

O jovem precisa aprender a “filtrar”, aprender a reconhecer o que é dele, o que é dos outros e isso vem com processo de amadurecimento. 

Como os pais podem ajudar os filhos nessa jornada de autodescoberta? 
Os pais podem contribuir no processo de escolha profissional dos filhos por meio de um diálogo aberto, sincero e mostrando interesse sobre os temas: as profissões, o mercado de trabalho, campos de atuação, suas expectativas e desejos, mas principalmente sobre as expectativas, gostos e sonhos de seu(sua) filho(a) e disponibilidade em ajudar. Pressionar nesse momento não favorece uma escolha clara, consciente e segura. É preciso de diálogo constante, compreensão e apoio.

Qual o papel da escola nesse contexto?
A escola apresenta um espaço privilegiado para desenvolver um trabalho de orientação profissional, desde um trabalho educativo, reflexivo e informativo sobre as profissões. Pode ter jornada de profissões, parcerias com universidades, trabalhar com o jovem o processo de escolha profissional, incluir os educadores para que eles possam compartilhar como foi a escolha profissional e atuar junto aos pais.

O que você poderia dizer às pessoas que estão sofrendo com isso? 
O medo de fazer a “escolha errada” faz com que o jovem, em algumas vezes, fique indeciso, inseguro e angustiado. Buscar se conhecer é crucial, bem como a informação profissional para que possa ter uma ideia da profissão no cotidiano, tirar qualquer mito ou fantasia. E, caso ainda  tenha dúvidas, há profissionais que atuam com a orientação profissional e podem dar suporte ao jovem para que possam escolher com responsabilidade e fluidez. Não precisa ter esse peso nas costas.

 

 

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