Um novo olhar para o universo
“Um espetáculo deslumbrante”. Foi assim que o jornal Correio da Semana descreveu o eclipse total do Sol que, há exatos 100 anos, fez escurecer o dia em Sobral, por pouco mais de cinco minutos.
Para além da beleza descrita no periódico local, a observação do fenômeno no Norte do Ceará, em 29 de maio de 1919, revelaria ao mundo um das mais importantes descobertas da ciência moderna: a Teoria da Relatividade Geral, proposta pelo físico alemão Albert Einstein.
Uma ideia revolucionária até para os dias de hoje, pois modificaria para sempre a concepção de tempo e espaço. Sem ela, hoje não seria possível utilizar tecnologias como aparelhos de GPS atualizados, celulares com aplicativos ou portas automatizadas.
Conforme a teoria, publicada em 1916, a massa dos corpos – como a do Sol ou de um buraco negro – deformava o espaço próximo a eles, provocando, assim, o desvio (deflexão) na trajetória de um feixe luminoso. Logo, tempo e espaço estariam diretamente atrelados e moldados pela matéria.
O momento ideal para se confirmar ou refutar essa curvatura da luz – que descreveria a ação da gravidade – era durante um eclipse solar total, quando se poderia observar, da Terra, o posicionamento das estrelas próximas ao Sol. Sem o fenômeno, ou em condições ditas normais, o brilho do astro-rei ofuscaria o que estivesse no seu entorno.
Imageticamente, é como se o espaço fosse um enorme tecido e o Sol, um objeto circular de grande massa, pesando sobre ele. Quanto mais massa o objeto tem, maior é a mudança provocada na geometria do espaço. O que implicaria em uma alteração do tempo, que corria mais lentamente nessas regiões próximas a grandes massas. Isso porque os raios luminosos não seguiriam suas esperadas trajetórias retilíneas.
A Ilha do Príncipe, na costa ocidental africana, e o município de Sobral eram os dois melhores pontos geográficos de onde se poderia mirar o fenômeno astronômico aguardado para aquele dia. O mau tempo, entretanto, frustrou as observações na Ilha.
Experiência bem-sucedida
Com auxílio do Governo Federal e intermédio do diretor do Observatório Nacional, Henrique Morize, uma expedição de brasileiros, britânicos e americanos, se dirigiu a Sobral para ver e fotografar o eclipse.
Mesmo sem carros e eletricidade, a cidade foi indicada por Morize como um lugar propício à realização do experimento, pois contava com uma “facilidade de transporte, de hospedagem, e de comunicação, pois estava ligada via telégrafo com o resto do mundo”, elenca o diretor técnico-científico do Museu do Eclipse e do Planetário de Sobral, Emerson Ferreira de Almeida.
Aquele dia também amanheceu nublado em Sobral, com chuviscos, mas um ‘sopro de sorte’ levou as nuvens para longe, garantindo nitidez. Entre as 8h58 e 9h03, a Lua encobriu totalmente o Sol, formando uma grande sombra na região. Imediatamente, a temperatura caiu.
Com câmeras acopladas em telescópios, dispostos embaixo de barracas montadas em diferentes locais da cidade - como na Praça do Patrocínio e na área interna do antigo Jockey Club -, membros da expedição eternizaram o momento tão esperado em sete chapas fotográficas de boa qualidade. Aquele se tornou o primeiro momento bem-sucedido do teste de comprovação da teoria einsteiniana.
O segundo, viria cerca de dois meses depois, quando o mesmo grupo de estrelas foi fotografado pelos expedicionários britânicos, exatamente do mesmo lugar. Mas à noite, quando se capta a localização real das estrelas, cujas luzes – sem a interferência do Sol – viajam em linha reta.
Após meses de complexos cálculos e comparação das chapas fotográficas, ratificou-se o que o físico previa: “Foi notada uma sutil diferença na posição das estrelas, devido à massa do Sol, que mudaria o percurso da luz ao redor dele”. O Sol, com seu campo gravitacional, foi o "objeto de prova", sintetiza o diretor do Planetário de Sobral.
A confirmação da teoria e o anúncio dos resultados, em novembro daquele mesmo ano, em Londres, consagrou a carreira de Einstein. “A questão que minha mente formulou foi respondida pelo radiante céu do Brasil”, disse o físico posteriormente.
Evolução
No momento em que a teoria de Einstein foi chancelada pela comunidade científica, pressupostos – soberanos no período – da Lei da Gravitação Universal, do cientista inglês Isaac Newton, foram colocados em xeque, afirma o diretor do Planetário Rubens de Azevedo e coordenador dos planetários do Ceará, Dermeval Carneiro.
Na mecânica newtoniana, afirma ele, o tempo é absoluto e regular. Mas, na teoria de Einstein a única constante do universo era a velocidade da luz. Enquanto o inglês defendia que a luz era uma partícula e não uma onda, o alemão dizia que a luz poderia ser partícula ou onda, a depender do meio em que estivesse viajando.
O Sol, ainda segundo Newton, exercia uma força sobre a Terra e vice-versa, mas como a força do Sol é maior, a Terra ficaria presa ao seu redor. Einstein, por sua vez, atestou que “a Terra está rodeando o Sol eternamente porque o Sol distorceu a região em torno dele, formando uma curvatura da qual a Terra não consegue sair”. Assim, há uma modificação no chamado espaço-tempo, completa, reforçando, porém, que Einstein veio “derrubar” somente “uma parte” da ideias de Newton.
Hoje, com o avanço tecnológico, novos aspectos da Teoria da Relatividade Geral de Einstein vêm sendo corroborados, de forma cada vez mais precisa. Em 2015, foi comprovada a existência das ondas gravitacionais, que consistem em ondulações formadas pela fusão de corpos de grande massa. E a tendência é de uma evolução rumo a descobertas ainda mais importantes, projeta Dermeval Carneiro. “Por conta dessa teoria, ainda vão aparecer muitas coisas no campo da astrofísica, como o GPS, que Einstein jamais poderia imaginar”.