Resgate para o futuro
O centenário do eclipse de Sobral é comemorado hoje, mas desde 29 maio de 2018 são realizadas várias atividades no município, como palestras, feiras de ciências, exposições, lançamento de livros etc. O objetivo é resgatar o conhecimento do fenômeno.
Embora considerado histórico para a Ciência mundial, ficou ‘adormecido’ entre as últimas gerações no Brasil. Inclusive em Sobral. Nas ruas, é difícil encontrar quem saiba comentar o ocorrido.
O prefeito da cidade, Ivo Gomes, admite que houve um “hiato” no repasse dessas informações, durante décadas. “Estudei em Sobral, mas isso não era muito difundido na escola. Tinha conhecimento porque havia um monumento na Praça do Patrocínio e relatos em casa. Só tive a noção da envergadura do fenômeno há 20 anos, na inauguração do Museu (do Eclipse)”.
Hoje, o evento que culminou na comprovação da Teoria da Relatividade Geral de Albert Einstein serve de “mote” para ações do serviço público. Em especial, nas escolas municipais. “Do ponto de vista educacional, a nossa preocupação foi popularizar esse fenômeno, cujos desdobramentos são difíceis de entender por leigos como eu e a maioria das pessoas”.
Produção científica
Por impulso da efeméride, estão sendo realizadas uma mudança no currículo de Ciências das escolas, desenvolvida em parceria com a Universidade de Stanford (EUA), e a inauguração de laboratórios, a partir dos quais os alunos do Ensino Fundamental são estimulados a obter suas próprias descobertas científicas.
Impressora 3D, cortadora a laser, kits de robótica, marcenaria e eletrônica são alguns dos itens presentes em laboratórios em duas escolas. Segundo o chefe do executivo municipal, a meta é “que os alunos queiram produzir Ciência e não que seja vista como uma coisa inatingível, indecifrável”.
Em visita à cidade para dar consultoria na instalação dos chamados laboratórios FabLearn, Paulo Blikstein, professor da Universidade de Columbia (EUA) e especialista em novas tecnologias para a educação, garante que o mais importante nas escolas não é levar o aluno a “absorver Ciência”, mas a fazê-la.
“O aluno tem que colocar a mão na massa, fazer experimentos, criar hipóteses. Isso é o aprendizado de Ciências no século XXI e é o que a gente quer trazer para cá para depois espalhar no Brasil”, indica Blikstein. “Nesses novos 100 anos que começam, em vez de Sobral ser o local que recebeu cientistas de fora para fazer experimento, queremos que comece a exportar os cientistas do amanhã”, soma.
Quanto ao eclipse, o professor considera a ocorrência no Ceará como “quase um milagre”, seja porque as nuvens poderiam comprometer a visualização do fenômeno seja porque o clima árido era um verdadeiro “desafio técnico” a ser vencido pelos cientistas, cujos instrumentos não eram projetados para suportar tanto calor.
“A precisão necessária para fazer um experimento desse tipo é como encontrar um alfinete num campo de futebol. Mas tudo deu certo e Sobral entrou para a história da Ciência”, diz, lembrando que, a longo prazo, os cálculos mentais de Einstein alteraram o hábito de pessoas em todo o mundo.
Sem a Teoria da Relatividade, enumera o professor, não seria possível acessar qualquer tipo de transmissão sem fio. Ter um celular, um smartphone com aplicativos ou um sistema de GPS com geolocalização precisa era algo impossível.
Secretário municipal de Educação, Herbert Lima reforça que a disseminação do eclipse na cultura sobralense “corrobora para que a cidade tenha hoje uma performance importante nos campos científico e educacional”.
Programação
Em comemoração ao centenário, haverá uma intensa programação dentro e fora da cidade. Além da reinauguração do Museu do Eclipse de Sobral, serão lançados selos postais temáticos no Brasil e na Ilha do Príncipe. Autoridades brasileiras e entidades científicas se reúnem no 1º Encontro Internacional do Eclipse. Em conexão com a Ilha do Príncipe, o evento encerra-se amanhã, em Sobral.
Brasília, por sua vez, abriga no Congresso Nacional a exposição “Centenário do Eclipse de Sobral”. A mostra fica até o próximo 15 de junho, no Corredor de Acesso ao Plenário, também conhecido como “Túnel do Tempo”.
A partir das 14 horas de hoje, a Global Opera in Science sobe ao palco do Theatro São João. A apresentação em Sobral será transmitida simultaneamente em Campos dos Goytacazes (RJ), em Portugal, na Ilha do Príncipe e na Noruega.