O dia que ficou na memória
Curiosidade, estranhamento, euforia, fascinação, medo... O eclipse solar total, esperado para ser visto no céu de Sobral em 29 de maio de 1919, provocou as mais diversas reações entre os moradores.
A agitação na cidade começara antes mesmo do evento astronômico acontecer, com a chegada de três expedições: uma formada por brasileiros, pesquisadores do Observatório Nacional; outra por britânicos, enviados pelo Observatório de Greenwich; e mais um grupo de americanos, do Departamento de Magnetismo Terrestre da Carnegie Institution, de Washington (EUA).
O assunto nas rodas de conversas em casas e calçadas era atiçado pela presença dos estrangeiros, com seus idiomas inacessíveis, e pela montagem em praça pública de instrumentos pesados de observação, como telescópios e celóstatos, além das máquinas de fotografar.
Sem esquecer do inesperado desembarque do primeiro automóvel a circular em Sobral, um Ford Packard, disponibilizado pelo Governo Federal aos cientistas. Com o risco eminente da febre amarela que assolava todo o Brasil, o carro era utilizado para os grupos expedicionários se deslocarem à Serra da Meruoca. Mais que fugir dos mosquitos, era alternativa apreciada pelos visitantes para arrefecer o intenso calor de Sobral.
Embora todos trabalhassem visando à elucidação empírica da Teoria da Relatividade Geral, de Albert Einstein, membros das expedições brasileira e americana tinham deveres à parte. Além de instalar uma estação meteorológica na cidade, a equipe de brasileiros se propôs a coletar dados sobre a coroa solar.
Enquanto isso, a expedição americana fornecia o equipamento necessário para a visualização do eclipse e estudava os efeitos do fenômeno quanto ao magnetismo terrestre e à eletricidade atmosférica.
A totalidade do eclipse durou apenas cinco minutos e alguns segundos, tempo suficiente para provocar uma revolução na Ciência e marcar a memória histórica e cultural do município.
Relembranças
Secretária da Diocese de Sobral há 57 anos, Zuleika Ximenes Viana, de 90 anos, resgata na afiada memória o pouco que a mãe – então com 14 – lhe contara sobre o dia do eclipse.
Evento tão incomum a ponto de ser cogitado por muitos habitantes da região como o fim do mundo. Na ocasião, fiéis se abrigaram em igrejas em busca de proteção contra o mau presságio.
“A minha mãe morava em uma fazenda quando surgiu a notícia do eclipse por aqui. Todos ficaram apavorados, mas logo tudo foi esclarecido e todos ficaram satisfeitos, sabendo que ninguém ia morrer”.
No breve momento em que a Lua cobriu totalmente o Sol, escurecendo os arredores e baixando a temperatura bruscamente, até os animais se confundiram quanto ao passar do dia.
“Ela (mãe) contava que as galinhas subiram no poleiro pensando que estava anoitecendo, mas logo começou a clarear. A noite foi curta e elas desceram tão desconfiadas”, ri, reproduzindo a fala da mãe.
Professora de História aposentada, Minerva Sanford, 88, também recorda os relatos da mãe, então com 12 anos.
Segundo Minerva, seu avô materno, John Sanford, um nova-iorquino radicado na região, recebeu integrantes da expedição norte-americana em sua casa.
Junto a Leocádio Araújo, que estudou agricultura nos Estados Unidos e prestava serviços ao Governo do Estado, Sanford atuou como intérprete, viabilizando a comunicação entre os cientistas estrangeiros e os brasileiros. “Todo o relacionamento deles com o povo local foi feito por meio de meu avô”, corrobora Minerva.
A residência de John Sanford, próxima à Praça do Patrocínio, no Centro da cidade, ainda conta com sua fachada original, onde hoje abriga uma escola. Por força do trabalho no setor coureiro, seu antigo dono mudou-se para o Brasil ainda jovem. Mas foi em Sobral onde casou e se estabeleceu.
“Vieram para cá grupos de cientistas e os americanos se hospedaram na casa do meu avô, que os recebeu muito cordialmente, porque eram patrício dele. A residência dele era grande, considerada muito boa”. O “xodó” do senhor Sanford, porém, era um sítio do qual a família ainda é proprietária, na Serra da Meruoca.
Quanto ao eclipse, a mãe de Minerva assegurava: o dia ganhou ares de noite. “Minha mãe dizia que ficou como se fosse seis da noite. Imagino que houve um certo susto na época, porque não tinha nem imprensa praticamente que divulgasse essas coisas”.
Conforme registros históricos, os pesquisadores americanos Daniel M. Wise e Andrew Thomson teriam ficado no palacete do coronel Vicente Saboya. E os astrônomos que chefiavam a expedição de ingleses, Andrew Claude de la Crommelin e Charles Davidson, também se instalaram em casas da família Saboya, dona da fábrica de algodão na cidade.
Para as duas filhas de Sobral, ter a terra natal como cenário para a confirmação da teoria de Einstein é motivo de orgulho. “Para honra nossa, o eclipse aconteceu aqui. A comprovação dessa célebre teoria ajudou muito a Ciência e o mundo inteiro”, arremata Zuleika.
Curiosidades
Antes de Sobral, pelo menos outras quatro tentativas de registro do eclipse solar total - de comprovação da Teoria de Einstein - foram realizadas, sem sucesso, em diversas partes do globo. Inclusive no Brasil, em Passa Quatro (MG), por volta de 1912. Porém, uma chuva forte o dia inteiro prejudicou os planos do grupo de observadores argentinos. Os motivos para o mau êxito iam desde o mau tempo a questões políticas e uso de equipamentos inadequados.
Embora o grupo de cientistas estrangeiros tivesse a seu dispor equipamentos modernos para a época, adotou utensílios de barro para conseguir revelar as fotos do eclipse. Os potes avermelhados, comuns no dia a dia da população sobralense, diminuíam a temperatura da água para cerca de 20 graus. É o que consta na dissertação “Entre Telescópios e potes de barro: o eclipse solar e as expedições científicas em 1919/Sobral-CE” – lançada hoje como livro –, de Joyce Mota Rodrigues.