Mãe em tempos de carestia, que agonia

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Legenda: Foram as mães da periferia de São Paulo, muitas delas nordestinas, que organizaram o primeiro protesto contra a carestia no país
Foto: Reprodução

A mãe tentando fazer milagre com o último punhado de moedas. A conta que não bate entre o número de bocas e o dinheiro contado. O menino mais novo puxando a barra do vestido. Que agonia — em tempo de correr doida no oco do mundo. Mesmo assim, ela consegue a multiplicação dos farelos. Óbvio que deixou de comer naquele dia para que os filhos dormissem direito.

Quem viu ou vivenciou cenas desse naipe sabe o que é uma mãe em tempo de perder o juízo. Diante da carestia, como esta que bate à porta em 2022, é um deus-nos-acuda. Por mais que um homem seja sensível e responsável, não aguenta os solavancos e as provações da mesma forma que as mulheres. Não chegamos aos pés. Por muito menos, nos perdemos, seja nas metrópoles ou nos sertões dos Inhamuns.

A carestia assombra todo mundo. É no coração materno, porém, o maior estrago, entre sístoles, diástoles, palpitações... O mesmo punhado de moedas, no mês seguinte, já não atende às mesmas bocas. A inflação come mais que esmeril da França. O custo de vida na era BolsoGuedes é para tirar do ramo.

Lembrei de uma cena histórica que se ajusta ao arrocho do momento: foram as mães da periferia de São Paulo, muitas delas nordestinas, que organizaram o primeiro protesto contra a carestia no país, no final dos anos 1970, em plena Ditadura. O grito, desta vez coletivo, teve origem nos clubes de mães das Comunidades Eclesiais de Base (CEBs), nas igrejas católicas suburbanas. Tudo começou no Jardim Ângela, foi à praça da Sé e bateu na vidraça dos palácios de Brasília.

Feliz Dia das Mães a todas. À dona Maria do Socorro, no Cariri, um agradecimento especial nesta data. Quando a barra ficou pesada, foi ela que desbravou as rodovias e colônias transamazônicas, revendendo bijuterias e ouro “michelin” de Juazeiro, para alimentar meia dúzia de bocas.

No Mercado Público, também fez bonito com sua bodega. “Isso é moleza para quem estava na roça de algodão desde menina; vocês trabalham sentado e na sombra e ainda reclamam”, diz ela, nas suas fabulações exemplares de hoje. Te amo, beijos.

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.



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