A vingança do rapaz do Crato no livro 'Ainda estou aqui'

Escrito por
Xico Sá producaodiario@svm.com.br
Legenda: Morte de Rubens Paiva completa 54 anos
Foto: Acervo Família Rubens Paiva/Divulgação

Tem cearense em qualquer boa história. Não poderia faltar, evidentemente, no livro “Ainda estou aqui”, obra do paulistano Marcelo Rubens Paiva que deu origem ao premiadíssimo filme brasileiro.

O cearense, agoniado com a falta de Justiça para a morte e desaparecimento do deputado Rubens Paiva — pai do autor — oferece o que pode e o que não pode ao bom companheiro, em um ato de hiperbólica generosidade de botequim.

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“Um amigo me propôs matar os que mataram o meu pai. Era de Crato, no Ceará. Dizia ter ligações com cangaceiros, justiceiros. Bastava eu dar os nomes. Bastava eu apontar. Meu amigo diletante, poeta-jornalista, bebum dos bons, insistia. Mando matar. Nem aventei a possibilidade”, conta Marcelo no livro.

O autor prossegue, com esperança nas soluções legais, óbvio, para o terrível crime da Ditadura Militar: “A redemocratização será a morte deles. Uma denúncia da Justiça, um julgamento posterior e a condenação legítima, elas virão”, conta o filho de Eunice e Rubens Paiva. “Não vieram”.

O rapaz do Crato sabia disso, conhece a história de impunidade aos coronéis e generais do Brasil. Mais do que o oferecimento real de uma vingança, o cearense, cujo nome não é citado na obra, via nas suas palavras uma forma (exagerada, é verdade) de solidariedade ao amigo escritor.

O manifesto de vingança do conterrâneo no livro “Ainda estou aqui” é algo folclórico da boemia paulistana. A rebeldia dos estudantes do Cariri contra a Ditadura, no entanto, ficou na história.

Lembro de uma crônica de Levi Rabelo, no jornal “A Verdade”, sobre essa memória da região. Ele destaca a participação do casal Eudoro Santana e Ermengarda Sobreira (pais de Camilo Santana, ministro da Educação) no apoio a militantes de esquerda que estavam na clandestinidade política e sofriam a implacável perseguição dos militares.

Diretor da Cecasa na época, uma indústria de cerâmica de Barbalha, Eudoro (atual presidente do PSB do Ceará), abrigou na empresa, entre outros, José Luiz Guedes, presidente da UNE em 1966-1967.

Tem cearense em qualquer boa história. O poeta-jornalista do Crato citado por Marcelo Rubens Paiva é só mais uma prova dessa tese. Quem será o bravo e anônimo personagem? Dicas para este colunista. Bom Carnaval. E que venha o Oscar para Fernanda Torres ou para o filme. Quem sabe, os dois. Terá festa no Cariri com certeza.

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.

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