O hábito de escrever diários

Pessoa escrevendo em caderno
Legenda: Na praticidade dos aplicativos ou na nostalgia dos cadernos, deixar a vida por escrito é uma bela forma de entender os desígnios e os mistérios da existência
Foto: Pexels

Os diários voltaram à moda, dizem por aí. Mas penso que o desejo de expressar e anotar a vida é muito mais do que tendência, e sim uma necessidade dos nossos tempos.  Além disso, a história deve muito àqueles que escreveram diários. Getúlio Vargas, Virginia Woolf, Kurt Cobain, Carl Gustav Jung, Franz Kafka, dentre tantos outros, deixaram cadernos que revelam muito do seu pensamento individual, são testemunhos da história oficial, mas também dos costumes íntimos de um lugar e de uma geração.   

Se não fosse pela dedicação de pessoas que separaram minutos do dia a registrar detalhes das suas vidas, muitas coisas teriam sido perdidas. Um dos diários mais famosos do mundo é o de Anne Frank, que ficou escondida com sua família em Amsterdã e depois foi presa e levada a um campo de concentração, onde morreu. Deixou no esconderijo o seu relato verdadeiro, pueril e contundente que comoveu o mundo.  

Foram seis milhões de mortos no Holocausto, e o testemunho de Anne Frank é um dos mais conhecidos. Ela deu voz a quem não pôde falar, nem contar. Narrou por eles os tempos de desgraça e terror. As tragédias foram distintas para outras pessoas, mas a dor humana é a mesma. Graças ao cuidado de seu pai, Otto Frank, o diário foi preservado e publicado, apesar das polêmicas sobre trechos omitidos e outras questões. A menina frágil personificou o horror e potencializou a consciência do mundo inteiro para a crueldade da Shoah.  

Páginas do Diário de Anne Frank
Legenda: Versão original do diário de Anne Frank
Foto: Heather Cowper / Creative Commons

Vivemos outro terror coletivo, agora. E as pessoas voltaram à escrita de si. Por definição, o diário clássico é um caderno onde o autor organiza a sua vida em palavras, datado, em ordem cronológica. Autores mais objetivos deixam ali apenas as informações concretas. Outros aprofundam em confissões e sentimentos. Quanto mais secreto, mais verdadeiro. Os melhores registros pessoais são aqueles que foram escritos para que ninguém lesse, guardados com rigor, escondidos.  

Porém, existem hoje outras modalidades de diários. Conheço pessoas que gravam áudios para si mesmo, diariamente. Outras usam aplicativos específicos. As redes sociais também são um tipo de diário, já que ali ficam registradas as imagens e textos de uma vida. Um livro aberto, exposto, o oposto do segredo.  

Dentre todas as parafernálias tecnológicas, há um aplicativo chamado Um Segundo por Dia, que tem como objetivo o registro de um vídeo curto e diário que, ao final, vira um filme do seu mês. Comecei a usar e fiquei impressionada com isso, como as coisas pequenas da vida passam rápido e a gente vai esquecendo, soterrados com as preocupações e tristezas. O registro dos dias também serve para guardar o que é bom.  

Um dos especialistas em diários no mundo foi o escritor argentino Ricardo Piglia, que usou os seus nomes do meio, Emilio Renzi, para assinar uma série de trezentos e vinte e sete cadernos de capa preta, que preencheu com sua vida desde os dezessete anos de idade. Além de contar os fatos do cotidiano, Piglia/Renzi também registrou os passos de sua formação intelectual, os pensamentos sobre arte, literatura, viagem, amores, cinema, a cultura dos países, a política, os passos da História.

Ele dizia que quem escreve um diário vive duas vezes: a vida que anotou e a que lembra.  

Na praticidade dos aplicativos ou na nostalgia dos cadernos, deixar a vida por escrito é uma bela forma de entender os desígnios e os mistérios da existência, preparar uma biografia, oferecer ao mundo um testemunho. Pode ser que um dia este registro, em caderno, em imagem ou voz, seja um grande tesouro para alguém. Guardar o que se pode preservar da vida é um gesto de esperança.  

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora.



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