50 Duetos: caminhar entre o diálogo de gênios

Sala com obras de arte
Legenda: A exposição "50 Duetos" marca os 50 anos da Fundação Edson Queiroz (FEQ)
Foto: Ares Soares / Unifor

Para que serve a arte? Para trazer beleza para a vida, alguém pode responder. Para aliviar a dor, pode ser a resposta de outro. Para sobreviver, diria alguém que renasce todos os dias. Hoje eu diria com muita certeza: a arte serve para nos ajudar a compreender o sentido de estarmos vivos.   

A coisa que mais tentamos fazer todos os dias é entender a vida e seus mistérios. São muitos os caminhos para isso e talvez nenhum deles isolado seja suficiente. A arte congrega todos.

Dentro das manifestações artísticas, cabem todas as tentativas de compreensão sobre vida, morte, amor, natureza, fé e milagre, renascimento, dor, alegria e todo o rosário das perguntas que perpassam a nossa existência. Viver é perguntar, perguntar e nem sempre ter resposta.  

Visitar uma exposição de arte é uma maneira de encontrar com mulheres e homens que também sofreram e sofrem das mesmas dúvidas, males e dores que nós, também das mesmas alegrias e festas. Das mesmas perguntas.

Por causa destes sentimentos, foram movidos pelo desejo de pintar, desenhar, esculpir, moldar, escrever, clarear, escurecer, transformar um pouco de vida em uma obra de arte no “vão desejo de permanecer”, como disse Iberê Camargo.  

A exposição 50 Duetos, do Espaço Cultural Unifor, é uma reunião de pares de obras de artistas que conversam, entre si, sobre isso tudo. Conversam também conosco, os visitantes, a cada instante em que nos impactam e emocionam. Denise Mattar, curadora de arte, estudou o acervo sublime de obras da Fundação Edson Queiroz e criou esses encontros entre grandes artistas brasileiros e alguns estrangeiros.   

É como entrar em um espaço e ver pessoas iluminadas conversando, aos pares. Alguns desses encontros seriam possíveis na realidade. Sergio Helle e Adriana Varejão, por exemplo, poderiam estar na mesma sala para conversar sobre o que pensam sobre o mundo e como isso está traduzido nas suas obras, imersos no azul da água e dos azulejos. Assim estão Beatriz Milhazes e os Irmãos Campana, com seus objetos e telas que explodem nos ornamentos, detalhes e cores.  

Mas Tarsila do Amaral e Francisco Almeida promovem, em silêncio, o encontro milagroso do sagrado brasileiro. As santas, velas, flores e anjos desse par genial nos comove e nos faz pensar na força da fé, um dos caminhos de explicação das coisas do mundo. Uma conversa silenciosa tecida quando os nossos olhos saltam de uma tela para outra. Diante deles estão os magos da terra: uma escultura de Mestre Didi e uma fotografia de José Bento com o registro do nosso passado africano, parte da matriz espiritual do povo da Terra Brasil.  

Quando estive na 50 Duetos, entendi que toda exposição é guardiã de um segredo. Os artistas são arautos que nos relembram de coisas simples e importantes. Muitos que estão ali atravessaram guerras e pestes. 

A Denise Mattar disse uma coisa inesquecível: depois da Peste Negra veio o Renascimento, berço de uma produção artística que elevou a humanidade. Para que serve a arte? Os pares de gênios que dialogam nas 50 Duetos nos respondem, cada um do seu jeito. Ismael Nery escreveu: “eu sou os olhos dos cegos. Eu sou o ouvido dos surdos. Eu sou a língua dos mudos”. O artista é quem vê o que ninguém está percebendo. A arte não serve: ela ilumina.

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora.