A carreira que virou “carrera” para o caidor

Na semana do Dia da Advocacia, a coluna traz um causo famoso da Justiça do Trabalho, relatado por uma testemunha ocular: eu mesma!

Na semana que comemoramos o Dia da Advocacia, resolvi contar uma história que ficou conhecida na Justiça do Trabalho de Fortaleza, no início dos anos 90, por ser inusitada e revelar uma nova profissão. Ninguém me contou. Eu assisti, de camarote, tudinho naquele dia.

A audiência, salvo exceções, é um ato público. Portanto, qualquer pessoa pode entrar na sala para assistir.

Era início dos anos 90. Naquela época, quando terminavam minhas aulas na Faculdade de Direito da UFC, ia para a Justiça do Trabalho esperar pelo meu pai terminar o expediente. Ele era então juiz classista. O Fórum Autran Nunes, no centro da capital alencarina, tinha apenas 12 Juntas de Conciliação e Julgamento (era assim que chamavam as varas na época) e funcionava em um único prédio na Av. Duque de Caxias.

Todos os dias, aconteciam por volta de 30 audiências em cada junta. Multiplique, então, por 12, e veja quantas histórias diferentes, por dia, eram contadas ali.

Juntei a “fome com a vontade de comer”. Enquanto esperava meu pai, variava as audiências entre as Juntas de Conciliação, tanto em busca de entender toda a logística onde seria o meu futuro profissional, como atrás de ouvir o melhor conto.

Certo dia, inicia uma audiência. Partes presentes uma de frente para outra. De um lado, reclamada, uma igreja que, na época, chamava muita atenção na abordagem e conquista de fiéis. Do outro lado, uma nova profissão revelada para surpresa de todos e uma grande investigação do juiz que conduzia o causo: o reclamante era o “caidor”.

- O senhor é o quê? - perguntou o juiz

- Dotô, fui contratado para ser o “caidor” da igreja - contou o reclamante ao magistrado sem tremer.

- O senhor pode descrever suas funções como caidor? - continuou o julgador.

- Lá na Igreja, tem uma hora que apareço, como se estivesse recebendo o demônio. Aí, ele (nessa hora, apontou para o representante da reclamada), chegava perto de mim, dizia umas coisas e eu caia. Quando me levantava, as pessoas pensavam que eu tinha sido curado. Na outra semana, era mais gente que chegava para alcançar um milagre. Só que eu não podia aparecer de novo, então, eles me levavam para as outras unidades deles para fazer a mesma coisa.

- E por que o senhor foi demitido? - interrogou o juiz.

- Eu não tive culpa de nada, dotô. Eu quase morro mesmo. Um dos lugares que me levaram, já tinham uns fiéis que tinham ido em outra unidade. Quando terminei o meu serviço, a pessoa lá gritou: “ele faz a mesma coisa em tal lugar! Isso é mentira!”. Aí, dotô, eu quase me lasco! A “carrera” foi grande quando vi aquele mundo de gente correndo atrás de me bater.

- Mas o senhor foi demitido ou pediu para sair depois desse fato? - prosseguiu o juiz em sua imparcialidade.

- Dotô, fui na administração no outro dia, né? Até de incompetente fui chamado e (disseram) que não servia para o posto, porque tinha ficado conhecido. Não me pagaram nada não e é por isso que estou aqui.
A audiência transcorreu com a oitiva das testemunhas do caidor, que, por sua vez, comprovaram o vínculo de emprego da nova carreira que apontava no início dos anos 90, mas que foi fatalmente extinta, graças a uma “carrera” bem dada.

Para concluir, trago um trecho da música de Chico César: “Deus me proteja de mim e da maldade de gente boa. Da bondade da pessoa ruim.” Caminhos se conhece andando, não é fazendo “carrera” ou carreira.

Dominguemos, amém!



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