Uma carta de Natal de quem ressignificou o Papai Noel

Foto: HAKINMHAN/ Shutterstock

Havia um garoto, no final da década de 90, que acreditava num velhinho que vestia vermelho e tinha barba branca. A figura passeava em seu trenó e surgia quando os ponteiros do relógio apontavam para meia-noite, entre os dias 24 e 25 de dezembro.

Durante anos esse garoto escreveu cartinhas pedindo diversas coisas ao velho, como bicicleta, roupa, sapato novo, mochila e tudo mais que seus pais não podiam lhe dar por serem muito pobres. A prioridade na casa do pivete era ter comida no prato todos os dias.

Esse garoto nunca conseguiu ficar acordado até a tal hora da passagem do bom velhinho para confirmar a existência dele. Por isso, passou anos acreditando que havia algum problema com a entrega de suas cartas, já que seus pedidos nunca eram realizados.

Nessa mesma família nunca se teve uma ceia de Natal. Se já era difícil ter o “pão nosso de cada dia”, imagine uma extravagância natalina. Alí, também nunca existiu um pinheiro verde com bolas metálicas coloridas e lâmpadas “pisca-pisca”. O garoto e seus irmãos faziam árvore de natal com garrafas de refrigerante ou com galhos secos do sertão cobertos com algodão, imitando a neve.

Certo dia, na sua rua, surgiu um caminhão de presentes, que distribuiu os regalos para as crianças que se amontoavam e conseguiam pegar algum brinquedo. Era uma verdadeira disputa de mães e pais tentando garantir a alegria de seus filhos com uma boneca, uma bola ou um carrinho.

Não se tratava exatamente de uma visão de amor, afeto, renascimento e solidariedade. Era uma imagem de luta por existência, uma disputa entre quem sairia presenteado e quem não, afinal de contas, o presente era como uma garantia de cartinha lida e retribuída, mesmo que não fosse o presente pedido, o ideal.

Qualquer presente significaria um ato de existir. Era como se alguém dissesse: 'Olha! Você foi lembrado'.

No ano seguinte, nosso garoto foi convidado para passar o Natal na casa de uma família muito rica, onde sua mãe trabalhava como cozinheira. Para sua surpresa, lá estavam todos os elementos da grande festa: presépio, árvore brilhante com embrulhos ao redor, mesa farta e até mesmo a presença de um Papai Noel. Entretanto, o velhinho de vermelho só cumprimentou os filhos dos donos da casa, ficando nosso garoto e seus irmãos na cozinha assistindo a confraternização.

Os anos se passaram e o nosso garoto, agora adulto, já não escreve mais cartas ao Papai Noel, nem espera por um presente. Aprendeu que o trenó do velhinho não passa pelas estradas secas do sertão. Largou alguns sonhos pelo caminho e ilusões como essa também, mas nunca deixou de acreditar na energia dessa época do ano.

Depois de muito se questionar sobre tudo o que passou e os anos em que esperou por um presente, percebeu que muito melhor do que esperar o tal brinquedo, é ter condições de realizar os desejos de quem ama, olhar o mundo com mais generosidade, não usufruir de tudo sozinho e aprender a dividir.

O tal menino saiu da cozinha e deixou de espiar os filhos da patroa com seus brinquedos novos para se tornar o próprio Papai Noel - aquele que constrói e compartilha com os seus e com o mundo os presentes da vida.

Feliz Natal!

 

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.