Ser tão Nordeste

Seca, sertão, vaca
Legenda: Assim, além do documentário, acabei escrevendo sobre todas essas lembranças, sobre ser nordestino e consciência de nossa ancestralidade
Foto: Honório Barbosa

Em mais de 20 anos de carreira, acredito que já fiz de tudo um pouco na minha área. Atuei, cantei, dirigi, produzi, escrevi... Estreei no palco, na TV, no cinema, no Carnaval e, recentemente, aqui no jornal. Pois bem, inventei agora de me aventurar como documentarista e sigo sem medo para mais uma “primeira vez” da minha vida.

O documentário faz parte do projeto Encruzilhada Nordeste, do Itaú Cultural - que reuniu diversos artistas e grupos nordestinos para produzir vídeos de até 15 minutos e, assim, expressar suas visões sobre a nossa região.

As apresentações, que vão de 27 a 30 de maio, acontecem de forma online e gratuita, sempre com bate-papo em seguida. Para acompanhar a programação, basta acessar o site do Itaú Cultural e adquirir seu ingresso. Minha nova estreia acontecerá no dia 28 de maio, às 20h, e dividirei a noite com Juracy de Oliveira, conterrâneo querido.

Nessa empreitada, assino o roteiro e a direção do curta-documentário Ser Tão Nordeste, mas as estrelas mesmo são: José Alves, o Seu Granduá, meu pai; Rita Invenção, a Dona Rita, minha mãe; e Douglas Robson, meu sobrinho.

O filme é fruto de uma reflexão sobre as três últimas gerações de minha família. É sobre meu passado, meu presente e meu futuro, aqueles que me antecederam e aquele que continuará o nosso legado. É sobre compreender que somos frutos do que nos foi possibilitado, proporcionado.

Gravei em Mombaça, minha terra, sertão central do Ceará. O projeto me chegou como gatilho de memórias, um mergulho tão profundo na minha origem, que ultrapassou a linguagem do audiovisual. Assim, além do documentário, acabei escrevendo sobre todas essas lembranças, sobre ser nordestino e consciência de nossa ancestralidade. Para que a história não se perca e nem a nossa identidade.

Assim, resolvi compartilhar aqui minha escrita na íntegra:

Minha cabeça é chata
Minha canela é fina
Meu chão é rachado
O meu sotaque é arrastado.
O meu passado conhece de perto a sede
E a fome, que é pra não perder de vista meu nome
Meu sobrenome.
Sou pivete de açude
Banhado nas águas doces
Na barragem que sangra.
Um cabra que, mesmo depois de crescido
Ainda pede a benção.
Que pra painho e pra mãinha,
Mesmo depois de crescido,
Continua sendo menino.
Eu venho de um lugar
Onde ser criança é brincar de
Carimba, pega-pega, esconde-esconde,
Bandeirantes, João-Cola, elástico
Bila, pipa, baladeira e arapuca.
Um lugar onde quermesse e leilão
São a maior diversão.
De onde eu venho,
Não existe quintal,
Mas, sim, terreiro!
Não existe portão,
Mas, sim, cancela!
Não existe estrada,
Mas, sim, caminho.
Não existe floresta,
Mas, sim, roça, mato.
No lugar em que nasci,
A vegetação é a Caatinga.
Parece seco, sem vida, morto.
Entretanto, basta uns pingos de chuva
Pra tudo ficar verdinho e florido
Afinal, nossa terra não é improdutiva
Ela é cuidadosa,
Ela se preserva num período para poupar energia
E ressurgir forte, bela.
Eu sou de um povo festeiro, alegre, acolhedor.
Do lugar de onde eu venho,
Visita recebe a chave
E dorme no melhor quarto da casa.
Comida, mesmo quando pouca,
Se divide pra todo mundo.
Onde mesa não é lugar de comer,
É encontro pra “jogar conversa fora”.
Calçada não é pra delimitar espaço,
É pra escolher “falar da vida”.
Um caboclo arretado,
Que acorda com o cantar do galo
E dorme na hora do sono das galinhas.
Que deita na rede pra ouvir o sapo cantar
E a muriçoca zunindo no pé do ouvido.
Sou um cabra da peste
Que mesmo depois de traçado o meu destino
Tem muito orgulho de ser sertão
De ser Nordestino.

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.



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