Ser ou não ser? Eis o padrão!

Legenda: Se existe uma falha no sistema, essa falha não sou eu e nem os meus
Foto: Mario Sabino

Como você se sente quando anda na rua? Percebe que está sob a mira dos olhares inquisidores das pessoas? Sente o peso desses olhares sobre a sua maneira de vestir, andar ou falar? Quanto tempo dura essa sensação de desconforto? E quando esses olhares se transformam em violências verbais diluídas em pequenas pitadas de ódio?

Por muito tempo, quando isso acontecia comigo, eu acreditava que era paranoia, coisa da minha cabeça, fruto de conflitos individuais. A caminhada foi longa até eu compreender que quando isso acontece, estamos diante de uma ação coletiva de preconceito de uma sociedade que, consciente ou inconscientemente, condena quaisquer atitudes fora do padrão heteronormativo ditado como “normais”.

Em primeira instância, sempre buscamos encontrar a causa do preconceito em nós mesmos, como se o tempo todo estivéssemos fazendo algo de errado, como se estivéssemos infringindo alguma lei natural. Entretanto, só estamos diante de mais um ato lgbtfóbico corriqueiro.

Não há nada de errado com nosso corpo, nosso jeito, nossa voz… Como diria Jean-Paul-Sartre: “O inferno são os outros”. Mas a sociedade é tão cruel com as questões de diversidade que, muitas vezes, nos rotula e nos empurra a sair do armário sem nenhuma consciência sobre o que isso significa.

Quando criança, ainda na escola, me lembro claramente de, mesmo sem qualquer compressão a respeito de sexualidade ou gênero, fui, por diversas vezes, violentado com as regras de comportamento: “Não fala desse jeito”; “Senta direito”; “Fala que nem homem”; “Menino não brinca com isso”; “Para de chorar”. 

Fui obrigado a me compreender como “diferente”, sem nem ao menos ter conhecimento de quem sou dentro de um coletivo, ou seja, antes de alguém se entender enquanto pessoa LGBTQIAP+, primeiro se aprende que não pertence ao “grupo normal” da sociedade.

Prestes a completar 40 anos, olho para meu passado e percebo como se tivesse uma ponte no meio desse caminho, porque foi somente com 20 anos que tive a coragem de romper com essas violências, assumindo minha sexualidade e confrontando esses preconceitos.

Meus primeiros 20 anos foram uma mentira, uma tentativa social de me moldar aos padrões de comportamento. Eu não vivi, tentaram viver por mim. Logo, um corpo morto-vivo em sociedade.

Então, dos meus 20 a 40 anos, mudou muita coisa? Se falarmos dos olhares de julgamento ou das tentativas de me colocarem numa caixa comportamental, não mudou nada! A grande diferença é que fui me impondo e fazendo com eles - os outros - enxergassem minha verdadeira personalidade.

E foi tudo tranquilo? Claro que não! Ser uma figura abertamente LGBTQIAP+ te faz sofrer grandes e pesadas consequências. E não precisa de nenhum grande evento para que o preconceito chegue. É no dia-a-dia, em casa, no condomínio, na rua, no mercado de trabalho, no supermercado, na praia.

Por muitas vezes, quando isso acontece com mais força, penso que a sociedade não evoluiu! A vergonha e o medo que nos fazem sentir ainda é constante, mesmo sabendo que não é um problema nosso, que não há nada de errado em ser quem somos.. Errada está a sociedade. É ela quem precisa perceber seus atos agressivos, suas violências psicológicas e físicas. Ela quem precisa se arrepender de um passado e um presente vergonhosos e mudar suas convicções para a construção de um futuro de respeito ao próximo.

Se existe uma falha no sistema, essa falha não sou eu e nem os meus. É burrice querer ditar as leis da natureza a partir de uma justificativa de padrão que nega a existência e a beleza da diversidade. Não existe absolutamente nada de errado em aceitar sua verdade e ser quem você realmente é. Orgulhe-se! Enfrente! Confronte! Busque seu bando, se fortaleça e seja!

Eu sou Silvero Pereira, gay, drag queen, artista e me orgulho de quem eu sou.

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.