Por que a geração de energia no Ceará deve desacelerar nos próximos anos?
Pioneiro no setor eólico, Estado vive hiato de novas usinas.
A matriz energética do Ceará deve desacelerar em 2026: a soma da capacidade das novas usinas previstas é menor do que a expansão registrada em 2025. Com problemas de infraestrutura na rede de transmissão, o cenário previsto para os próximos anos também é de baixa expansão.
O Ceará deve receber 12 usinas solares ao longo do ano, com capacidade de 554 MW, conforme o Relatório de Acompanhamento da Expansão da Oferta de Geração de Energia Elétrica (Ralie) da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).
Em 2025, a capacidade do Estado cresceu 556 MW, o quinto melhor resultado do Brasil. Já para os próximos anos, a previsão é de redução ainda maior na expansão energética.
Segundo o painel de acompanhamento da expansão, a matriz elétrica cearense deve receber 310 MW em usinas solares ao longo de 2027.
O que explica esse movimento?
A retração de investimentos no setor está associada ao curtailment (cortes de geração determinados pelo Operador Nacional do Sistema devido à insuficiência da rede de transmissão), ressalta Luis Carlos Queiroz, presidente do Sindienergia.
A interrupção na geração gera perdas financeiras em empresas do setor e também desestimula novos investimentos. O prejuízo do setor em 2025 superou R$ 6,5 bilhões, segundo levantamento da Volts Robotics.
“A taxa de juro é outra coisa que é um ofensor muito grande. Porque com uma taxa de juro dessa, quase que impossibilita qualquer investimento”, acrescenta Luis Carlos Queiroz.
Os cortes de geração na região atingiram 20% da energia renovável que poderia ter sido produzida em 2025, lembra Joaquim Rolim, gerente de Desenvolvimento Sustentável da Federação das Indústrias do Estado do Ceará (Fiec).
“Tais níveis de cortes se situam entre os maiores do mundo. É imprescindível a implantação e divulgação de um plano prioritário, com prazos, para redução de tais cortes a níveis aceitáveis, visando reconquistar a confiança dos investidores”, aponta.
CEARÁ PASSA ANOS POR HIATO DE NOVOS PROJETOS EÓLICOS
Pioneiro na produção de energia pela força dos ventos no Brasil e com 101 usinas eólicas em operação, o Ceará enfrenta um hiato de novos empreendimentos no setor.
Não há nenhum projeto eólico em andamento. Novas usinas só devem entrar na malha energética a partir de 2031, conforme o balanço da Aneel.
Isso ocorre porque o escoamento de energia só deve ser normalizado após 2029, quando entram em operação obras estruturantes do sistema de transmissão. O Ceará vai receber mais de 1.400 quilômetros em linhas de transmissão e três novos compensadores.
Além do desestímulo às empresas pelos cortes de geração, o setor eólico também perdeu ativos para o setor solar da micro e mini geração distribuída (MMGD), afirma Francisco Silva, diretor regulatório da Associação Brasileira de Energia Eólica (Abeeolica).
“Especialmente por incentivos que essa fonte recebeu ao longo dos últimos tempos. Subsídios foram dados, fazendo com que o retorno para os investidores que entram na MMGD seja de menos de dois anos. Isso tomou demanda de uma série de outros empreendimentos, como os eólicos”, afirma.
O Ceará deve receber 58 usinas eólicas, com 2,4 mil MW de capacidade em 2031. Deve haver também um grande volume de novos empreendimentos solares, com previsão de acréscimo à capacidade de 8,9 mil MW.
Esses empreendimentos estão no estágio de média viabilidade no levantamento da Aneel. Há outras usinas sem previsão de instalação, com capacidades somadas em 4,2 mil MW.
MESMO COM NOVOS PROJETOS, SETOR SOLAR ACUMULA PREJUÍZOS
A curva menor de crescimento dos projetos é reflexo de escolhas tomadas há algum tempo, destaca a Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar).
Mesmo que a instalação de novos parques solares não tenha sido interrompida, o setor enfrenta riscos de perda de credibilidade, fuga de capital e queda de empregos.
“Por mais que se verifiquem investimentos aportados ao longo dos anos, o que tem acontecido nos últimos 12 meses, tanto no Brasil quanto no Ceará, é uma curva menor de crescimento dos projetos solares centralizados. E a tendência nos próximos, caso as medidas regulatórias não tragam soluções concretas, será de mais retração e queda de investimentos”, disse a associação em nota.
O segmento acumula prejuízo de R$ 2,8 bilhões decorrente da falta de mecanismos de compensação aos empreendedores impactados. O crescimento da capacidade nas usinas solares caiu de 5,6 GW para 2,8 GW em um ano.
RISCO PARA A INDÚSTRIA DA ENERGIA
A desaceleração da ampliação da matriz energética brasileira arrisca principalmente as indústrias voltadas a novas usinas, que perderam a demanda abruptamente.
“Nós criamos, ao longo de todos esses 30 anos, toda uma cadeia de fabricantes de pás, dos próprios geradores eólicos, da engenharia necessária para isso”, lembra Luís Carlos Queiroz, presidente do Sindienergia.
O gestor chama atenção para a necessidade de esforços para a manutenção da cadeia, já que as indústrias devem receber uma demanda de grandes dimensões na próxima década.
O Ceará tem 3.800 empregos formais na área de fabricação de equipamentos elétricos, com destaque para a cadeia eólica, segundo a Fiec. Há outros 3.600 ligados diretamente à geração e transmissão de energia, em risco pelo cenário de cortes na geração.
A pausa nas instalações também gera impacto econômico e reduz a atratividade industrial do Ceará, segundo análise da Abeeolica.
A recuperação exige avanço na infraestrutura de transmissão, previsibilidade regulatória e mecanismos de transmissão que garantam segurança.
Além disso, o cenário deve ser equilibrado com o aumento do consumo de energia por grandes empreendimentos, lembra Joaquim Rolim. Atualmente, há muito mais geração do que demanda por energia, o que sobrecarrega o sistema.
“Fundamentalmente se requer que seja fomentada a ampliação do mercado consumidor, por exemplo através de datas centers, hidrogênio verde e indústria sustentável”, comenta.