Tocando em frente: uma carta para Divaldo

No seu aniversário, preciso te falar um pouco sobre a vida, sonhos, medo e amor

Uma carta para mim
Legenda: Ao invés de deitar na minha rede na varanda de casa para ouvir música, resolvi sentar-me para te escrever
Foto: Pexels

Meu querido Divaldo,

Hoje, como em outros “3 de julho”, acordei cedo, tomei meu café da manhã. Cumpri as burocrácias de praxe, atender alguns telefonemas e ler mensagens de felicitações. Mas ao invés de deitar na minha rede na varanda de casa para ouvir música, resolvi sentar-me para te escrever. Essas primeiras linhas de um novo ciclo significam muito, principalmente para um destinatário como você.

É, somos o pano e a linha, caminhamos há tanto tempo juntos nas asas das canções. Fizemos história pelos caminhos, sempre nos apoiando um no outro. Faz parte! Mas como o poeta mineiro já afirmou “a hora do encontro também é de despedida” e venho agora formular quem é você, quem sou eu e essa relação tão duradoura.

Talvez, uma hora dessas você não esteja nem ligando para essa carta, deve pensar que hoje não é o dia mais propício para isso. Sei que aniversário não é uma data fácil desde muito para a sua lida, mas acredite, eu que tenho o dobro da sua idade, também não me dou muito bem com eles.

Já que temos essa semelhança e hoje celebramos nossa existência, você doze anos e eu vinte e cinco, me coloco no direito de lembrar certas coisas. Há, sei que está pensando quem sou eu para ditar tudo isso, se também tenho tão pouca experiência neste vasto mundo, ainda assim insisto em lhe escrever.

Às vezes, me perco no tempo, e fico te espiando de longe, sem que notes. Vejo a tua transição de criança para adolescente. Vou além das espinhas no rosto e capto teu sorriso sincero, por vezes triste, mas te entendo, cada um leva a vida como pode. Teu olhar tem uma meiguice, uma afeição tão familiar. Admiro tua responsabilidade assoberbada, mesmo sabendo que ela não vai te servir para sempre e nem vai ser tão útil.

Sem querer ser o dono da razão e nem dar lição de moral, mas me sinto na obrigação de dizer…Deixa! Você vai aprender com o futuro, mas te dou uma prévia que a liberdade não nos é concedida pelo mundo, mas por nós mesmos e não podemos nos colocar amarra. O planeta é grande, querido, tanto que nossa visão não consegue lhe abraçar, então, se
prenda aos detalhes, eles são bem mais importantes.

Você nem sabe que eu sei, mas anda meio desanimado por aí. Eu noto! Porém tem um poema que diz: “Carlos, sossegue o coração. O amor é assim mesmo, hoje beija amanhã não beija, depois de amanhã é domingo e segunda-feira ninguém sabe o que será”. Uso os versos para dizer que muita coisa independe da gente, não se cobre ou baixe a cabeça. Não queria dar uma prévia, mas não me contenho.

Sabe seu maior sonho de encontrar seu ídolo? É, rapaz, não desista! Ele vai acontecer. Confie em mim, aliás, confie em você! Vai ser lindo e como você fala de menos e eu demais vou confidenciar outra coisa: se agarra na música, ela vai te salvar de poucas e boas. Os sons, rimas e estrofes vão ser tua força, tua oração, então se firme nelas pois lhe possibilitarão outras utopias.

Eu estou só te dando essa prévia para ver se você se anima! É, eu sei, não sou a melhor pessoa para falar de alegria em aniversário, mas existem outros mais de trezentos dias depois dele. Viva! Você aprendeu que as pessoas vão embora cedo e, infelizmente, isso vai continuar acontecendo então não deixe de agradecer pelos pequenos gestos, desde beijar
a careca de seu pai a comer o bolo da sua Tia Marleide.

As dores, frustrações, felicidades e realizações passam, o que fica é quem nós somos e não adianta se programar. De uma hora para a outra as peças do tabuleiro caem e precisamos começar tudo novamente e isso dá trabalho, mas você é fênix. Esse seu jeitinho magrinho, dentuço e de cabelo raspado só despistam a força que você tem.

Uma carta para mim mesmo
Legenda: Essas primeiras linhas de um novo ciclo significam muito, principalmente para um destinatário como você
Foto: Pexels

Já falei tanto de você, né? É porque entendo suas dificuldades. Não pense que ninguém entende o que se passa nesse coraçãozinho. Eu entendo e por muito desejaria te proteger de tropeções e quedas, mas não adianta, precisamos de cicatrizes pois elas nos dão identidade. Faz parte do show!

Outra coisa importante, não adianta imaginar onde você estará daqui há cinco, dez ou nos próximos doze anos. Nada é previsível, digo isso por experiência própria. Ninguém sabe do amanhã. Já que falei de você vou citar meu exemplo agora.

No início do ano eu tive uma depressão, negócio sério, sabe? Tive que tomar remédios e tal, tudo isso depois que eu contraí um vírus aí, é melhor nem falar nele, um dia você vai entender. No auge desse problema, segurei em duas mãos, a de Deus e a da minha mãe. É, você deve rir, mas mãe é nosso refúgio sempre, independente de idade. Pois bem, mas
quando me senti no último degrau, ganhei fôlego e subi a escada novamente, entendendo que não importa a velocidade, mas a firmeza das passadas.

Em seis meses tudo mudou e eu mudei. O negócio foi tão louco, que há uma semana voltei da Europa depois de uma viagem incrível e já começo a desmamar as medicações para caminhar para alta. Nesse ponto somos parecidos, só que eu não sabia, e acho que depois desta carta vou me olhar no espelho até melhor.

Sabe, Divaldo, somos jovens mas não temos tempo a perder. Isso eu aprendi esses dias, pois alimentar saudosismos só impede voos altos. Sabe aquele quadro do Gandhi que ficava no escritório do teu apartamento na Rua Visconde do Rio Branco, dizendo que “o medo pode ter alguma utilidade, mas a covardia não”? Pois é! Coragem você tem, mas
admita isso e abrace com todas as forças.

Siga em frente, sem olhar para trás. Arrependimentos são inevitáveis e até necessários, mas alimentá-los só é perder preciosas horas de fervor. Mude quantas vezes for preciso, de casa, de rumo, de profissão…Mude! A vida não tem volta e pela sua religião, só temos uma, então aproveite o que der.

Todas essas linhas escrevi entre risos e lágrimas, afinal, vivemos parte disso juntos, mas apesar de toda essa ligação e por tudo o que disse, hoje também preciso me despedir de você. Não! Por favor, não chore! Não é um adeus, é um até breve, continuaremos nos encontrando por aí, mas a derrocadas e vitórias precisam ser tuas e elas não podem mais gritar tanto dentro de mim.

Não tenha receio, você vai conseguir e aqui entre nós, você tem um futuro lindo pela frente. Mesmo que de forma precoce, a vida vai exigir que o adolescente vire logo homem, e você não vai falhar nesse desafio. E aqui entre nós: vai ser um homem honesto, digno, inteligente…Não sei se bonito, mas tendo um certo charme.

Nem tudo são flores e eu ainda estou aprendendo isso, mas não abaixe a cabeça para as adversidades. Tenha a felicidade de ser o Divaldo Luã, mesmo que chegue um ponto que a assinatura profissional seja o segundo nome acompanhado do último. Ai eu entro, um poeta delirante e sonhador. Na verdade, sou Divaldo Luã Oliveira Diógenes, ou simplesmente Luã
Diógenes com muito orgulho!

Não esqueça também que eu te amo. Te amo tanto! Amor que chega a doer. Volto a dizer que se eu pudesse lhe protegia de muita coisa, mas navegar é preciso, querido! Reme, mesmo quando a maré pareça caudalosa, outras águas, mais serenas e calmas irão surgir junto de pessoas maravilhosas, abraços, beijos, utopias e boas brigas (você não foge delas).

Chega de choro! Esqueceu? Não olhe para trás. Ah, eu preciso dizer isso para mim mesmo. Então sigamos! Como já falei, você nunca sairá do meu coração e eu um dia vou fazer parte do seu. Continue seu caminho, que muito há de ser conquistado e o resto deixa comigo, que apesar de não gostar de aniversário, entro nessa nova idade com mais garra do que nunca.


Te amo muito. Parabéns!
Luã Diógenes