“Noites de Festival” reaviva o legado de Zuza Homem de Mello e a consolidação da MPB

A série documental que estreou no dia 14 de outubro apresenta em seis episódios a chamada “Era dos Festivais da Canção”, marco da produção musical brasileira.

Festivais
Legenda: Seja por filme, série ou livro, entender o que foram os “Festivais” é compreender o que é a tal Música Popular Brasileira
Foto: Divulgação/Canal Brasil

Há quase um mês faleceu um dos mais competentes pesquisadores da música brasileira. O incansável Zuza Homem de Mello partiu aos 87 anos, deixando um legado de conhecimento, requinte e genialidade dentro da compreensão do cancioneiro popular deste país. 

Para provar que os grandes nunca morrem, foi lançada série documental “Noites de Festival”. Sob a direção e roteiro de Renato Terra e Ricardo Calilque, o seriado é dividido em seis episódios, tem como base o filme “Uma noite em 67” (2010) , que por sua vez é inspirado no livro “A era dos festivais – Uma parábola” (2003), uma das obras fundamentais para quem deseja conhecer a MPB e tem autoria do já mencionado, e agora visto como eterno, Zuza Homem de Mello.

Seja por filme, série ou livro, entender o que foram os “Festivais” é compreender o que é a tal Música Popular Brasileira, falada de forma tão banal e pouco compreendida dentro da sua essência e complexidade. 

A série nos mostrar o que existe além do palco. Talvez um dos pontos altos desses primeiros episódios, são os bastidores daquelas apresentações, as competições entre os compositores e que nem tudo é glamour. Maior exemplo de curiosidade é a vaia levada por Nana Caymmi com a vitória de “Saveiros”, música de Dori Caymmi e Nelson Motta, para o FIC de 1966, conquista essa que o público não aceitou.

Os festivais fizeram daquela música que estava sendo feita algo chamado de “popular” (ao menos no nome) e consolidou os embates rítmicos, como um dos momentos de maior apoteose da história musical do Brasil. Naquelas apresentações firmaram nomes como Chico Buarque, Caetano Veloso, Gilberto Gil, Elis Regina, Jair Rodrigues, Edu Lobo, Rita Lee junto dos Mutantes. Parte desses artistas narram os episódios da série, contam a própria história e indiretamente a nossa.

Televisão e a “fórmula festival”

Neste ano, a televisão completou sete décadas que pisou em solo brasileiro, causando uma enorme revolução no país. Trazida por Assis Chateaubriand e inaugurada no dia 18 de setembro de 1950, aquela caixa, que reproduzia som e imagem, modificou as estruturas da sociedade e a música, claro, também tirou vantagem e foi influenciada pelo aparelho.

Para a primeira transmissão, por exemplo, Chatô teve de distribuir vinte televisores em locais públicos para que o povo pudesse assistir. O processo de popularização do veículo foi lento, as pessoas ainda eram fiéis ao “Rádio”. A verdade é que a “TV” só veio realmente conquistar as casas do grande público na década de 60, até então o objeto era de total luxo.

Consolidada como nova “queridinha”, sua programação ainda persistia na influência do projeto radiofônico. O que dava audiência no “Rádio” foi transportado para a “Televisão”. Programas de calouros, novelas e humorísticos dominavam os horários. Mas campeão de audiência mesmo eram os festivais, o que torna mais justo ainda o lançamento do  “Noites de Festival” neste 2020.

O pesquisador de música brasileira Marcos Napolitano classifica a “fórmula dos festivais" um dos pontos altos para a popularização da TV. Com eles o veículo alcançou um público jovem e empolgado. Vale lembrar que dentro daqueles teatros e ginásios, onde ocorriam as competições, surgiram gêneros como o Tropicalismo e a Música de Protesto.

A fórmula deu tão certo que disseminou em várias televisões locais. Aqui no estado, tivemos na antiga TV Ceará os “festivais universitários” onde surgiram nomes como Antônio Carlos Belchior, Raimundo Fagner, Ednardo, Rodger Rogério, Fausto Nilo e Ricardo Bezerra.

A história da própria história

Assistir aos episódios da nova série emociona o espectador que ama música. Em primeiro lugar, por trazer depoimentos sensíveis de testemunhas e participantes dessa história. O escritor Sérgio Cabral lembrando da interpretação de Elis Regina para a música “Arrastão” de Edu Lobo e Vinicius de Moraes, é comovente. Assim como os depoimentos exclusivos para série de Paulinho da Viola e Tárik de Souza.

Rever imagens de um Brasil que sabia musicalizar suas lutas, utopias e ideias nos torna mais forte. A série vem em um momento oportuno de tantas incertezas que assolam o mundo nos últimos tempos. Levam certa alegria quando mostram o sorriso de Jair Rodrigues, a serenidade do Ferreira Gullar ou o entusiasmo do próprio Zuza, responsável por tudo isso, mas que resolveu partir antes da estreia da série.

Eu podia ficar por horas escrevendo sobre cada exibição, narrando as letras das músicas e até curiosidades, mas qualquer um que ousar fazer isso melhor que a série documental “Noites de Festival” tende ao erro. Para quem deseja compreender o que é a “Música Popular Brasileira”, seus artistas e manifestações tem obrigação de assistir atento aos episódios e se deliciar com um dos momentos mais marcantes da formação artísticas deste país.