Guru do Pessoal do Ceará, história de Augusto Pontes vira livro organizado por Ricardo Bezerra

A obra “O Amigo Genial” reúne artigos de amigos, críticos e admiradores do compositor que rememoram a relevância dele no cenário cultural cearense.

Augusto Pontes I
Legenda: Augusto Pontes foi um dos mentores do "Pessoal do Ceará"
Foto: Reprodução

Com certa frequência, para quem acompanha meus artigos semanalmente, o grupo “Pessoal do Ceará” é citado. Claro, a agremiação foi a mais importante do nosso Estado, quando adentramos na área musical. O movimento surgiu no final dos anos 1960 e conquistou o cenário nacional na década seguinte. 

Artistas como Ednardo, Rodger Rogério, Teti, Belchior, Fausto Nilo e Raimundo Fagner integraram o movimento. Outros cantores e compositores também fizeram parte desse “nosso pessoal” como Brandão, Petrúcio Maia, Ricardo Bezerra e Cirino. Agora, um nome crucial para essa formação foi o de Augusto Pontes. Uma espécie de guru rebelde daqueles jovens, o boêmio teve total influência nesse período da música cearense.

Mais velho que os demais, Augusto era um boêmio nato e um dos maiores frasistas das noites fortalezenses. Em seu habitat natural, os bares, o compositor fez e contou histórias que marcaram a memória de quem teve a honra de conviver com ele, principalmente, seus parceiros.

Visando relembrar essa grande figura da nossa cultura, o arquiteto e já mencionado compositor Ricardo Bezerra reuniu uma série de 64 artigos que serão lançados no próximo dia 14 de maio como uma obra biográfica do artista de título "Augusto Pontes - Um amigo genial" . O material é composto dos depoimentos de amigos e colegas do compositor, sempre trazendo os múltiplos olhares no entorno do artista.

“Vida, Vento, Vela”

 

A vida noturna era uma das principais fontes de inspiração para aqueles jovens da década de 1960. No Ceará, além dos festivais universitários onde muitos aspirantes a artistas apresentavam sua inquietação revolucionária nas músicas, os bares também viraram palcos para essas cantorias.

Dois desses merecem destaque: o Estoril e o Bar do Anísio. O primeiro era localizado na antiga Praia de Iracema, já o outro ficava próximo do que hoje chamamos de “Volta da Jurema”, meio século atrás, ainda sem a exploração do turismo e lazer. O cenário era paradisíaco! A lua branca que se espelhava em um mar azul, o vento levando a jangada e a brisa batendo nos olhos. 

Livro Augusto Pontes
Legenda: Capa do livro "Augusto Pontes - Amigo Genial"
Foto: Reprodução

“Vida, vento, vela leva-me daqui” é um trecho da música que carrega o nome “Mucuripe” e continha muitos desses elementos vistos dali. A composição é de autoria de Belchior e Fagner, aliás, ela marca o encontro desses dois artistas no Bar do Anísio.

O que pouca gente sabe é que justamente esse trecho da canção não era nem de Belchior ou de Raimundo Fagner, mas sim do grande Augusto Pontes, que costumava repeti-lá no Bar do Anísio, com isso sendo ele um coautor da letra, sem nunca ter exigido qualquer direito sobre ela, ao contrário, achava era bonito tudo aquilo. 

Aliás, nosso eterno Bel também teve inspiração na frase de Augusto para fazer uma de suas letras mais marcantes. “Sou apenas um rapaz latino americano, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes" era também do veterano, só com uma pequena alteração: ao invés de “parentes importantes” seriam “patentes importantes”. De forma original a censura não permitiria a gravação e foi modificada. 

Ao contrário das composições anteriores, sem os créditos devidos do boêmio, isso não aconteceu com outras letras emblemáticas para o “Pessoal do Ceará” como a empolgante “Carneiro”, com Ednardo. A letra já demonstra esse incentivo que Augusto Pontes dava para aqueles jovens seguirem uma carreira nacional e irem para o eixo Rio-São Paulo.

Outra canção de Augusto, agora também com o grande Petrúcio Maia, foi outra composição de alta representatividade na vida noturna da capital cearense. “Lupicínica” foi gravada como um bolero gostoso também por Ednardo, junto da voz da querida Teti, ainda na década de 1970.

Augusto Pontes não era só um “compositor latino americano”, ele foi muito além. Seu jeito mesclava provocações ao bom humor de sempre. Ele encorajou aqueles jovens a ganharem o mundo e mostrarem o que sabem fazer de melhor: música! Não é para menos que lhe apelidaram de “professor”.

Publicitário, produtor cultural, compositor…Augusto Pontes conseguia ser tantos, mas único ao mesmo tempo. É tanto que, treze anos após seu falecimento, surge um livro que traz essa ideia fundamental de resgatar para as novas gerações a vida plena de uma dos nossos ícones culturais cearenses. 

 



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