Em um ano de pandemia, músicas falam de dilemas atuais sem desacreditar na cura

Lenine, Vitor Kley, Lulu Santos, Gilberto Gil e Chico Buarque são exemplos de vozes que reconstruíram nossa realidade e seguem semeando a esperança

Chico e Gil
Legenda: Gilberto Gil e Chico Buarque na capa do single "Sob Pressão" (2020)
Foto: Reprodução

Ao longo desses longos meses de isolamento, a música se tornou um respiro. Uma companhia que é confidente, amiga ou até um canto de revolta. Muitos são os sons dessa quarentena interminável, alguns feitos exclusivamente sobre ela, outros ganharam uma nova visão mediante a letras atemporais. 

O que a sociedade precisa é da “cura”, e as músicas anunciam isso. Aliás, é esse o título da composição de Lulu Santos pertencente ao seu álbum de 1988 chamado “Toda Forma de Amor”. “A Cura”, que naquele ano falava de um outro vírus, o do HIV, ganha perfeita sintonia com tudo o que estamos vivendo, e mostra como a história se repete.

“Existirá /E toda raça então experimentará/Para todo mal, a cura” os versos parecem gorjear a esperança da vacina, e a cicatrização de um dos mais tenebrosos períodos da nossa história contemporânea. Mesmo atualíssima, a letra exigia nova interpretação, e ganhou uma roupagem comovente por um dos mais talentosos cantores novos, o gaúcho Vitor Kley. A canção segue em dueto com seu autor, Lulu Santos, em um single delicadíssimo.

Dentro dessa reunião do futuro e passado, ambos almejando vencer toda essa etapa, o DJ Alok lança remix de outra composição que foi feita há algumas décadas mas segue atemporal: Paciência. A música é fruto da parceria de Lenine com Dudu Falcão e já completa mais de vinte aniversários. 

Em uma visão profética, as estrofes parecem decifrar a necessidade de espera e obediência ao tempo. “Enquanto todo mundo espera a cura do mal / E a loucura finge que isso tudo é normal / Eu finjo ter paciência”, clamam os versos. 

Sucessos ganham outra conotação

Ainda mencionando músicas que mais parecem profetizar o futuro, pode-se entrar até na onda do “Maluco Beleza”, o querido Raul Seixas, em uma das suas bem humoradas e críticas canções “No dia em que a terra parou”. A faixa foi título do seu álbum lançado em 1977 e parece premonitória diante do sonho do artista que visualizou o mundo parar. 

“No dia em que todas as pessoas do planeta inteiro/ Resolveram que ninguém ia sair de casa/ Como que se fosse combinado, em todo o planeta”, a letra segue na profecia, “E nas Igrejas nem um sino a badalar/ Pois sabiam que os fiéis também não tavam lá/ E os fiéis não saíram pra rezar” e ainda complementa “o aluno não saiu para estudar/ Pois sabia, o professor também não tava lá/ E o professor não saiu pra lecionar”. Apocalíptica ? Não, atual (se é que se pode diferir as duas ideais).

O dia em que a terra parou
Legenda: Capa do disco "O dia em que a Terra parou" (1977) de Raul Seixas
Foto: Reprodução

Fugindo de teorias conspiratórias e surreais, tenho de mencionar a eterna “Sujeito de Sorte”, do cearense Belchior. “Ano passado eu morri, mas esse ano não morro”, o verso do paraibano Zé Limeira que compõe o refrão da música, ao contrário da letra de Raul Seixas, parece discordar da realidade.

“Sujeito de Sorte” foi um dos hinos de despedida de 2020, ano triste, difícil e de perdas incalculáveis. Na verdade, a esperança de novos tempos de mais luz, não coincidiu no Brasil de 2021 diante do maior caos sanitário desde o início da pandemia. Lamento dizer, Bel, mas morremos novamente !

Compositores eternos descrevem o presente

Em tom de encerramento, jamais poderia deixar de destacar a genialidade de Gilberto Gil. Enquanto vários outros artistas da atualidade buscam regravar o passado (o que não é errado, ao contrário, necessário), o baiano lança em parceria com Ruy Guerra o single inédito “Sob Pressão”.

A faixa, que foi tema da série de mesmo nome, narra a pandemia da Covid-19 de forma poética, realista e fantástica. Exalta os profissionais da saúde, os sintomas da doença, a rotina nos hospitais de campanha e nas altas cúpulas de comando do país.

Para interpretar a canção, ninguém menos que Chico Buarque, na minha visão o principal letrista brasileiro. Dividindo o canto com o velho amigo Gil, o compositor dedilha sua voz suave pela métrica de cada palavra, voz essa que já trilhou tanto nossas vidas. 

Na primeira estrofe, “Sob Pressão” já diz a que veio. “Falta de ar nos gemidos dos ais/A febre, seus fantasmas, seus terrores/ Sem pressa, passo a passo, mais e mais/ A besta avança pelos corredores”, e os olhos se enchem de lágrimas visualizando a triste cena que vemos repetir diariamente nos jornais em um ano de pandemia.

Estamos vivendo em um dos momentos mais tristes da nossa história, caminhamos para os trezentos mil mortos devido a complicações causadas por esse vírus silencioso. Dentre os medos, incertezas e despedidas, podemos dizer que para respirar no meio do caos, é necessário arte, é necessário vida, é necessário música.

Termino essas linhas, caro leitor, convidando a seguirmos na luta e nas medidas sanitárias. Em casa, dentro do distanciamento, busquemos musicalizar a nossa solidão, pois como já diz os versos de Ruy Guerra e Gilberto Gil: Vamos cantar que a vida é só agora/ E se eu cantar amigo a vida é nada.