Em seus 80 anos, Ney Matogrosso já vestiu o Ceará na sua voz

Em seu vasto repertório, o artista soube passear pelo autêntico cancioneiro cearense e gravou composições de Ednardo, Fagner, Rodger Rogério e Fausto Nilo

Ney Matogrosso Estúdio
Legenda: Ney Matogrosso completa oitenta anos com vitalidade, juventude e talento na voz
Foto: Elisa Mendes / Divulgação

Começar o dia e não falar do aniversariante, Ney Matogrosso, é impossível! O cantor completa neste domingo oito décadas de vida, o que parece inacreditável, já que o artista se faz atemporal feito uma figura mística da nossa música popular. Além de ser uma das maiores vozes do cancioneiro deste país, com sua voz limpa, suave e potente, nosso querido Ney faz jus à palavra “artista” e sabe o que é se portar em um palco.

A imagem do intérprete sempre se mostrou algo “mitológico”, desde o início da carreira ainda no grupo Secos e Molhados. Parece unir o masculino e feminino, fauna e a flora, o desejo e a castidade. Ney é Ney e nunca vai existir outra figura que reunirá tantos elementos do inconsciente psicodélico humano em sua arte.

Sua versatilidade e ecletismo visual também é notado no seu repertório sofisticado e brasileiro. O cantor já colocou a voz nos mais diversos ritmos, batidas e sons. Foi do tango de Astor Piazzola ao samba de Cartola, dançou por sucessos mundiais sem nunca esquecer do seu “Sangue Latino”.

Nessa mesclagem surrealista, Ney Matogrosso jamais esqueceu o nosso tão querido Ceará. Além de fazer shows memoráveis do Estado, o octogenário sempre esteve ao lado dos compositores desta terra, gravando suas músicas e os admirando com paixão e intensidade.

O Nosso Pessoal em cena

Com novo trabalho fonográfico saindo do forno para entrar na casa dos octogenários (com corpinho de debutante), o sul-mato-grossense havia lançado seu último albúm em 2019 quando seu “Bloco na Rua” pela última vez. Esse era o título de um show gravado naquele ano em que Ney parecia voltar aos clamores de liberdade existentes em sua alma tão vibrante.

No espetáculo que virou CD e DVD, os nossos conterrâneos se fizeram presentes com canções lindas e o artista soube as interpretar muito bem, mesmo que em novas roupagens enérgicas.

É o exemplo da sexta faixa do álbum, a inesquecível Pavão Mysteriozo, de autoria do genial Ednardo. Lançada em 1974 mas popularizada somente em 1976, depois de virar tema da novela Saramandaia (Rede Globo), a cauda aberta em leque da ave ganhou um mistério peculiar na voz do aniversariante.

Ainda que escondendo a batida do Maracatu, tão essencial na letra obra, a nova versão ganhou certo dinamismo (pendendo até para o lado tropicalista nos arranjos), as cores do pavão seguem vivas e exclamam: eles são muitos mas não podem voar!

A admiração pelos cearenses não vem de hoje. Ney Matogrosso já confessou em várias entrevistas seu fanatismo pelo Raimundo Fagner, amizade por Belchior e admiração por Ednardo. Amigos do artista ainda dizem que, nos bastidores, o cantor tem um enorme desejo de conhecer Rodger Rogério, por quem tem uma identificação musical enorme.

Capa
Legenda: Capa do álbum "Bloco na Rua"(2019)
Foto: Marcos Hermes/Reprodução

É nesse espírito contestador pairando também pela Terra da Luz, que ele gravou em “Bloco na Rua”, novamente a efusiva “Ponta do Lápis” (Rodger Rogério e Clodo Fernandes) e a dramática “Postal do Amor” (Raimundo Fagner, Ricardo Bezerra e Fausto Nilo). Ambas haviam sido lançadas por ele em parceria com Raimundo Fagner em compacto no ano de 1975, ganhando nova interpretação, agora solo, em 2019.

“Era moderno meu batom"

A admiração pelos colegas sempre foi além dos olhos de Ney e se derramavam em seu cantar. Foi o que aconteceu no tango fortalezense “Retrato Marrom” (Rodger Rogério e Fausto Nilo), quando as ondas leves dos mares de Iracema se revoltam com força e desaguam no velho Estoril, cenário da composição.

A letra lhe coube como uma luva ainda na década de 1970 quando o cantor afirma que o “nosso amor é um escuro bar” e completa dizendo que “era moderno seu batom”. Ney Matogrosso sempre se fez à frente de seu tempo e ao escolher os cearenses para gravar sempre acertou em cheio.

Muitas linhas serão escritas para o aniversante de hoje. Eu poderia escrever ainda mais, porém me contenho nestas humildes palavras para dizer que o Ceará reside em muitos dos anos desse que é um dos maiores artistas do mundo

Aos oitenta anos nosso homenageado exala audácia, erotismo, liberdade e entusiasmo. Já me acompanhou em lágrimas sentidas e amores roubados. Adentrou feito viajante dentro de minha casa, como um pássaro sem asa e conquistou. 

É Ney, jurei mentiras e fiquei sozinho! Assumo os pecados...Mas os ventos do norte não movem moinhos. Dizem até que sou louco por pensar assim, porém, fazer o quê? Você me ensinou a ser essa metamorfose ambulante. Sem dúvida, foi uma coisa sua que ficou em mim e não tem fim! Vida longa, fauno.

 


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