90 anos de Cauby Peixoto fazem lembrar do cantor que foi muito além de “Conceição”

Falecido há cinco anos, Cauby segue sendo uma das vozes desse país, além de referência de dedicação e estudo diante a arte do canto

Cauby peixoto
Legenda: Cauby Peixoto completaria se vivo fosse 90 anos no próximo dia 10 de fevereiro e os fãs devem comemorar muito a existência do cantor
Foto: Divulgação/Marco Máximo

Não é estranho ouvir da crítica que o “Brasil é um país de cantoras”, e é verdade. Em uma nação que gerou Dalva de Oliveira, Ângela Maria, Emilinha Borba, Elis Regina, Nara Leão, Gal Costa, Maria Bethânia...São tantas, que por mais que passe horas ditando nomes sempre esqueceria de algumas das estrelas musicais desses nossos palcos.

Quando falamos de cantores, o cenário muda. Poucos são lembrados como símbolos de interpretação e voz, sem perder o lado do artista que sabe vender também sua imagem para o público. Dentre alguns nomes que ainda são recordados, um se destaca diante o reconhecimento de um público sensível e até mesmo dos próprios colegas, ninguém menos que Cauby Peixoto.

O “Professor”, como era chamado no meio artístico, completaria se vivo fosse 90 anos no próximo dia 10 de fevereiro, e mesmo que nesta data simbólica já tenha falecido, todos os seus fãs e admiradores têm motivos para comemorar.

Cauby, ousado seja no canto ou visual, foi um dos primeiros ídolos brasileiros, conquistou um público cativo, alcançou carreira internacional e atravessou gerações com sua voz incansável de veludo.

Costumeiramente conhecido pela música Conceição (Jair Amorim/Dunga), samba-canção que virou seu maior sucesso desde a década de 50, Cauby Peixoto foi muito além e pela vasta trajetória de dedicação à arte de cantar merece ser exaltado sempre. E mesmo em seus últimos anos de vida, nunca deixou de ser moderno, versátil e eclético, com o repertório que ia de Sinatra a Gardel.

“Com muitos brilhos me vesti”

“Cauby, Cauby” eram gritos que todos os dias se escutavam nas porta da Rádio Nacional do Rio de Janeiro, na década de 1950. Eram fãs ansiosas que aguardavam a saída de seu ídolo para poder rasgá-lo. Essa era a rotina do niteroiense Cauby Peixoto, vindo de uma família musical, foi levado pelo irmão pianista, Moacyr Peixoto, para cantar nas boates, e ainda menor de idade conseguiu trilhar seus primeiros passos na carreira.

Do Rio de Janeiro foi para São Paulo, ainda como crooner da noite, conheceu o empresário Edson Collaço Veras, ou simplesmente Di Veras, que o transformou no maior ídolo de massa da sua geração. Como bom estrategista, o industrial mandou arrancar todos os dentes do jovem Cauby, alegando ser dentuço e mandou-lhe fazer próteses. Lhe levou em um bom alfaiate, e renovou guarda-roupa.

Tudo isso é apenas um aperitivo do que Di Veras fez. Pagou para sair uma matéria jornal da manchete “Quando Cauby canta as meninas desmaiam”, na verdade até então elas não chegam a ter tal reação, mas com o slogan divulgado, não faltava agora moças a desmaiar nos auditórios dos programas como Paulo Gracindo, César de Alencar e Manoel Barcelos. Até colocar no seguro a voz do niteroiense ele fez. Coisas do Di Veras!

Em 1958 o caçula dos Peixoto chegou a gravar até o primeiro Rock em português de título “Rock in Roll em Copacabana”, que entrou na trilha do filme “Minha sogra é da polícia”. Na apresentação, o cantor recebia o acompanhamento dos até então iniciantes Roberto e Erasmo Carlos.

Nesse período, Cauby ainda tentou alcançar carreira internacional. Foi morar nos Estados Unidos, lá mudou até de nome, se tornou “Ron Coby” e depois “Coby Dijon”, teve certa repercussão com a gravação de “I go”, versão da música “Maracangalha” de Dorival Caymmi. Ainda na terra do Tio Sam, atuou no filme Jamboree, gravou com a orquestra de Paul Weston e cantou com astros da música mundial como Nat King Cole.

Voltando para o Brasil por saudade e por medo do esquecimento, Cauby seguiu a fazer certo sucesso, mesmo que nunca mais chegando ao auge dos anos 1950. Ainda assim, o cantor nunca desistiu de renovar repertório indo do cafona ao chique. Talvez, a dualidade seja outro sinônimo da sua carreira.

“Mas não bisei, voltei correndo ao nosso lar”

Ao falar de repertório o professor fez jus ao apelido, e ensinou a um país o que era saber interpretar. Sua primeira gravação foi “Blue Gardenia” versão em português de Antônio Carlos para a letra de Bob Russel e Lester Lee. Desde então, sucessos não lhe faltaram.

“Tarde fria”, “Pérola e Rubi”, “Canção do Rouxinol”, “A Noiva”, “Molambo”, “Nono mandamento”, foram tantos…Mas para superar a “Conceição” de 1956 só teve uma. “Bastidores”, letra de Chico Buarque, que lhe presenteou no álbum “Cauby, Cauby” de 1979 que era assinado por grandes compositores como Caetano Veloso, Tom Jobim, Jorge Ben, Joana, dentre outros.

Na música que traz a habilidade de Chico de incorporar o eu lírico feminino, o compositor encara a vida de uma cantora da noite, ou até mesmo uma prostituta, que sofre ao perder seu amor e faz do canto seu desabafo. Sentou na voz do Cauby como uma luva, que com gestos, caras e bocas, além do vozeirão, fez da música uma interpretação única.

Depois desse álbum, Cauby voltou a viver momentos de glória, agora como um veterano a ser espelho das gerações de novos artistas, mesmo assim, sem perder o amor de suas “queridas fãs”. Teve “tiete” do artista que nunca chegou a casar por causa dele e esperou até o fim que ainda fosse viver esse grande amor.

“Cantei ! Jamais cantei tão lindo assim”

Mesmo com álbuns sensacionais e sofisticadissimos como “Estrelas Solitárias” de 1982 e discos em parceria com a igualmente eterna Ângela Maria, Cauby Peixoto passou certos perrengues na carreira. Após problemas de saúde, já chegando nos 70 anos, passou a ter vida administrada por sua fiel escudeira Nancy Lara, amiga querida que faleceu em 2020 vítima da Covid-19.

Além de um novo aparato, o professor ganhou a detalhada biografia “Bastidores” de Rodrigo Faour. Recebeu também a produção nos seguintes trabalhos do genial Thiago Marques Luiz. Renasce assim uma estrela. Cauby canta Sinatra, Nat King Cole, Voz e Violão, Roberto Carlos, Serenatas e até Caubeatles. Muitos foram os projetos da dupla, que não cessaram nem no triste 15 de maio de 2016, quando os pulmões fortes do artista se renderam a uma infeliz pneumonia.

Em álbum póstumo, e por ironia do destino, Cauby traz uma interpretação melódica e grave para as canções de seu ídolo, Dick Farney. Na verdade, morreu como começou: brilhando e sabendo respeitar a boa música.

“Chorei ! Até ficar com dor de mim!”

Por tantos camarins o eterno rouxinol soube exibir suas pérolas e rubis. Com sua voz tamanha, Cauby brilhou em tantas tardes frias. Sem ele, possivelmente, não teríamos tão grande referência de voz e amor pelo ofício dentre os cantores. Ele foi único, aliás Cauby é único, e sempre será um marco dentro no cancioneiro popular brasileiro.

 Respeitado por um público cativo que continua lhe amando e respeitando mesmo após cinco anos de sua partida, o niteroiense segue sendo exemplo para inúmeros colegas, e sendo unanimidade de caráter no meio artístico.

Cauby e Luã
Legenda: Primeiro encontro meu com Cauby Peixoto, em 2011. Realização de um grande sonho. Obrigado, Cauby !
Foto: Arquivo pessoal

Sem o intérprete de “Conceição” talvez não teríamos parte de nossos cantores, ou pelo menos não como eles viriam a ser. A certeza que eu tenho é que sem Cauby, aquela criança de nove anos jamais se apaixonaria por música com tamanha intensidade, que dedicaria parte da sua vida a ela, inclusive escrevendo essas linhas emocionadas nesse momento. Sem Cauby eu também não existiria. Obrigado, professor !