A riqueza da suposta desimportância

Um autor, uma artista, um poeta precisa de frivolidade e de tempo para contemplação

Foto: GoodStudio/ Schutterstock

Conversando com minha amiga Aline dia desses, contei para ela sobre o furacão de coisas acontecendo na minha vida. As mudanças, os projetos, o livro novo, os sonhos que nascem a partir dessa dinâmica, desse portal que se abre num momento de produção em larga escala.

Aline ouviu tudo empolgada, vibrou comigo, orgulhosa como toda boa amiga, empolgada, aplaudindo e fazendo planos concretos, desde já, para o que ainda nem aconteceu. No fim, perguntou: promete que eu vou poder continuar te contando das minhas coisas daqui? Da colheita das uvas, da venda dos figos, da escolinha do meu filho?

Respondi naquela hora, mas saliento aqui, em novo formato. Sim, não só porque quero, mas porque preciso. Porque é exatamente disso que uma autora é feita: de tempo para aparentes desimportâncias. Fico pensando que autor conseguiria sentar numa cadeira para escrever a próxima história, o próximo poema, se a vida fosse cheia de compromissos, de reuniões, de trabalhos, de viagens ocupadas, de jantares sem fim, de muita mirabolância. Um autor, uma artista, um poeta precisa de frivolidade e de tempo para contemplação.

As histórias nascem porque podemos nos dedicar a elas em pensamento, na calma dos dias, e isso acontece porque, vez em quando, podemos nos dar ao luxo de viver momentos que não ocupem todos os quartos da cabeça.

Podemos sentar na cadeira da varanda para ler Manuel Bandeira, podemos lavar a louça, colher os tomates, e alimentar nosso enredo a partir de então. Podemos, devemos, precisamos pegar o telefone, ligar a webcam ou sentar na mesa de um bar e ouvir as amigas, a mãe, o avô, saciando, assim, a beleza da banalidade.

Quero o trabalho, quero os projetos, quero o brilho dos desafios e os aprendizados. Mas quero a sorte de saber da colheita das uvas da minha amiga, do vinho barato na sala, da discussão sobre o preço do peixe, do meme recebido no WhatsApp, do “estou com saudade de ti” dito às três da tarde da terça-feira, do filme besta na Netflix, do canto desafinado no karaokê de um bar de carpete vermelho. Quero equilibrar tudo isso com estudo, suor, a pilha de livros da Virginia Woolf - para quem a banalidade era fundamental, vale ressaltar - e a celebração do que é considerado grande.

Quero honrar o aparentemente pequeno e deixar que as histórias nasçam nesse intervalo de tempo entre uma coisa e outra.

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora.