Procuram-se textos de Jorge Coelho Garcia, meu avô

Fotos antigas, em preto e branco
Legenda: Quando eu era menino, vovô já havia falecido. Penso que havia uma foto dele, em sépia, no quarto de minha avó, Isaura, lá em Caucaia. Mas não tenho certeza disso
Foto: Pexels

Sei quase nada sobre ele. O pouco que tenho conhecimento a respeito de meu avô materno, Jorge Coelho Garcia, vem de antigas conversas que tive com minha mãe. Fiapos de memória, esgarçados pelo tempo. Ela me dizia, conforme recordo, que o pai era telegrafista, tivera uma tipografia e havia escrito um romance, “Vidas simples”, se não me falha a lembrança.

Quando eu era menino, vovô já havia falecido. Penso que havia uma foto dele, em sépia, no quarto de minha avó, Isaura, lá em Caucaia. Mas não tenho certeza disso. Por mais esforço mental que faça, não consigo lembrar de nenhum traço fisionômico contido no suposto retrato. Aliás, existia, de fato, um retrato?

As recordações são todas assim, embaciadas, nevoentas, fugidias. Por isso, fiquei tão contente e emocionado quando li, por acaso, tempos atrás, ao folhear um velho número da revista do Instituto do Ceará, de 1989, um artigo do jornalista, historiador e memorialista Mozart Soriano Aderaldo intitulado “O espírito da Praça do Ferreira”.

No texto, há ligeira referência à revista “Fanfarra: periódico de artes, letras e mundanismo”, publicação de circulação efêmera, restrita ao ano de 1925, mas que a despeito disso foi considerada um marco do modernismo literário cearense. Dirigida pelo grande Edigar de Alencar, o jornalista cearense que escreveu livros até hoje fundamentais sobre a história da música popular brasileira — inclusive uma biografia pioneira do sambista carioca Sinhô —, a “Fanfarra” era editada na modesta tipografia de meu avô, então instalada na Praça do Ferreira.

Foi o que fiquei sabendo ao ler o texto de Soriano Aderaldo, informação que depois contatei estar confirmada por Raimundo Girão, em “Fortaleza e a crônica histórica”, e pelo próprio Edigar de Alencar, em “Variações em tom menor”.

Recorri a jornais de época para tentar saber mais. Nada encontrei. As escassas menções ao nome de meu avô que consegui garimpar referem-se, todas elas, a pedidos de licença e avisos de transferência do emprego público de telegrafista.

São notinhas oficiais, mandadas publicar à época pelo Departamento de Correios e Telégrafos. Ora meu avô aparece como transferido de Fortaleza para Baturité; ora de Baturité para Granja; ora de Granja para, de novo, Fortaleza.

Minha mãe falava de algumas dessas transferências e consequentes mudanças súbitas de endereço, ocorridas quando ela era apenas uma menina de olhos muito claros e lacinho de fita nos cabelos encaracolados — como atesta a foto que guardo, hoje, como um de meus bens afetivos mais preciosos.

Nos jornais antigos, até onde pude investigar, não há outras alusões à tipografia de meu avô, muito menos ao romance que escreveu, o que me leva a presumir jamais ter sido publicado. A “Fanfarra”, infelizmente, também não consta dos arquivos da hemeroteca da Biblioteca Nacional.

Sendo assim, as notícias que tenho de meu avô resumem-se mesmo ao punhado de lembranças rarefeitas e indiretas, aquelas poucas que me chegaram por meio de minha mãe, e isso quando eu próprio ainda era um garoto mais preocupado em brincar no quintal, jogar futebol de botão e ler Júlio Verne. Pena que ela, mamãe, não esteja mais aqui, para eu tentar puxar-lhe mais algum possível fiozinho de memória familiar.

Meu maior desejo seria ler, agora, o “Vidas simples”. Tentar identificar, neste ou noutros textos que vovô escreveu — ou porventura tenha escrito —, algum traço que nos ligue emocionalmente numa esquina qualquer do tempo. Deve ter vindo dele, especulo, a minha afeição pela palavra escrita.

Um elo que me foi transmitido, ao sangue, tutano e ossos, pelo cordão umbilical de minha mãe, ela própria a melhor escritora que já conheci. Autora inédita em livro, diga-se, mas que escrevia cartas e diários de extraordinária beleza. Tento, até hoje, imitar-lhe o estilo límpido. Sem, contudo, jamais conseguir chegar nem perto disso.

Recorro aqui aos primos, sobrinhos e, ainda, pesquisadores em geral. Caso encontrem fotos, notícias retroativas e, principalmente, escritos de Jorge Coelho Garcia, avisem-me. Tenho uma dívida de gratidão para com ele — e com sua memória. Salve, Jorge!