Mausoléu de Castello deveria mudar para Memorial Frei Tito

Legenda: O frade católico cearense Frei Tito
Foto: Divulgação

Soube que o deputado estadual Renato Roseno (PSOL) apresentou requerimento à Assembleia Legislativa propondo a mudança do nome – e do uso – do mausoléu de Castello Branco, localizado ao lado do Palácio da Abolição, em Fortaleza. Como biógrafo do marechal, autor de Castello: A marcha para a ditadura, concordo com a ideia.

Lastimável que a própria base de apoio do governo estadual, que se pressupõe progressista, tenha rechaçado a proposta, fazendo coro aos saudosistas da tirania. Não faz sentido continuar a homenagear o primeiro ditador guindado ao poder pelo golpe civil-militar de 1º de abril de 1964. O mausoléu da avenida Barão de Studart é um monumento ao arbítrio.

A construção foi erguida no auge do período de exceção, por iniciativa de um governador biônico, Plácido Aderaldo Castello – ungido pelo próprio Castello Branco, depois referendado em conluio pelos caciques da Arena, o partido de sustentação do regime. O nome do estádio Castelão, a propósito, homenagem a Plácido Aderaldo, é outro entulho ditatorial.

O mausoléu do marechal Castello Branco só foi inaugurado em 1972, por César Cals, também biônico, mais um que chegou ao posto sem ter recebido um único voto dos cearenses. Cals foi nomeado pelo então ditador de plantão, Emílio Garrastazu Médici. A inauguração fez parte das celebrações em torno do sesquicentenário da independência – cujo jingle dizia ser a “festa do amor e da paz”, farsa que coincidiu com o clímax das prisões, torturas e morte de adversários do governo.

Castello, que se dizia um legalista, pregava que lugar de militar é no quartel. Afirmava que todo fardado metido com política se tornava uma espécie de lobisomem – aberração na qual ele próprio acabou por se transformar. No processo de metamorfose, fechou o Congresso, cassou deputados e não teve forças para se contrapor aos extremistas de coturno. Acabou engolido por eles, passando a faixa para o arqui-inimigo Costa e Silva.

À época, a ala dita moderada, marchando unida em torno de Castello Branco, Golbery do Couto e Silva e Ernesto Geisel – grupo autodenominado de “Sorbonne da caserna”, devido à pretensa superioridade intelectual em relação aos pares de farda –, foi vencida pelos truculentos da linha-dura. Castello, o suposto estrategista, viu-se derrotado por um sargentão com estrelas de general no ombro.

Agora, quando os lobisomens voltam a uivar para a lua, o mausoléu do marechal é, mais do que nunca, um acinte. O projeto arquitetônico, com o belo vão suspenso, é um prodígio, concebido pela prancheta do carioca Sergio Bernardes, arquiteto premiado internacionalmente.

Em vez de exaltar a memória de um ditador, bem que poderia abrigar um memorial da democracia, para celebrizar a luta dos muitos cearenses que, ao contrário do marechal, trabalharam em prol da liberdade e da cidadania. Faríamos justiça histórica se ele passasse a ser chamado, oficialmente, de Memorial Frei Tito.

 

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.



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