Hoje, 7 de setembro, vou trajar luto

Bandeiras pretas
Legenda: Estarei de luto pelas muitas outras atrocidades que se abatem sobre o Brasil
Foto: Evaristo Sá / AFP

Hoje, 7 de setembro, vou trajar luto. Sim, estarei de luto, em primeiro lugar, pelas 580 mil vítimas da irresponsabilidade e do negacionismo das autoridades federais no enfrentamento à Covid-19. Estarei de luto pelos queridos amigos que perdi, pelos muitos conhecidos que se foram, pelas tantas vidas brilhantes e precocemente abreviadas, resultado direto da perfídia de quem incitou aglomerações, desdenhou das máscaras de segurança, escarneceu das vacinas.

Mas também estarei de luto pelas muitas outras atrocidades que se abatem sobre o Brasil, diariamente, desde a ascensão dos bolsonaristas ao poder. Um séquito de ogros que inclui ministros do meio ambiente favoráveis à devastação, ministros da educação contrários ao ensino público, gestores da área da cultura pregadores do obscurantismo, presidentes da Funai que abrem inquéritos policiais contra lideranças indígenas, chanceleres orgulhosos de o país ter se tornado um pária internacional, autoridades da saúde semeadores da morte e, para coroar, um presidente que elogia o fuzil em detrimento do feijão.

De luto, sim, pelos 464 mil hectares de floresta perdida — área nove vezes maior do que a cidade do Rio de Janeiro —, se contados apenas os últimos doze meses do calendário. Efeito da ausência de uma política ambiental concreta, do desmonte dos órgãos de fiscalização, dos retrocessos jurídicos no setor, do conluio com ruralistas, grileiros, madeireiros e mineradores.

Estarei de luto pelos cortes no orçamento das universidades públicas — instituições que devem ser “para poucos”, conforme grunhiu o próprio ministro da área —, pela suspensão de bolsas de pesquisa científica, pelo engavetamento do Plano Nacional de Educação, pela estratégia cínica que, a pretexto de combater ideologias, injeta doses ainda mais cavalares de contaminação ideológica e pregação religiosa nas escolas.

De luto pelo fato de o país ter à frente dos órgãos da cultura indivíduos que emulam Joseph Goebbels, consideram ter sido a escravatura benéfica para os negros, andam de revólver à cintura e — para ilustrar melhor o descaso e a incompetência administrativa — deixaram arder o depósito da Cinemateca Brasileira, após inúmeras advertências a respeito, lançadas inclusive por órgãos federais.

De luto, ainda, em relação à cultura, devido a brutalidades como o sucateamento da Funarte, a nomeação de gestores sem a qualificação necessária para a Casa de Ruy Barbosa e o estrangulamento do Instituto do Patrimônio Artístico Nacional (IPHAN). Afinal, para os bolsonaristas, arte e cultura são inimigas a serem destruídas; artistas, professores e intelectuais, adversários a eliminar.

Sim, estarei de luto contra os que hoje, 7 de setembro, irão sequestrar palavras sagradas como liberdade e democracia para atentarem exatamente contra o significado nelas expresso. De luto contra milicianos digitais, produtores de fake news, disseminadores de discursos de ódio, líderes evangélicos desonestos, ruralistas inescrupulosos, armamentistas assumidos, policiais amotinados, militares que emprestam apoio a quem sempre fez da “rachadinha” — usemos aqui o termo legal, peculato — para o enriquecimento pessoal.

De luto. Longe daí, mas com o coração em frangalhos. Ao som do mar e à luz do céu profundo.

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.