Ex-votos de Juazeiro integram exposição de chinês Ai Weiwei

Legenda: "Works from Juazeiro do Norte (Named After Weiwei Saw the Work)"
Foto: Foto: Juliette Bayen/Reprodução/Facebook

Ex-votos e outras esculturas em madeira dos artesãos de Juazeiro do Norte estão lá, logo à entrada da exposição mais impressionante que presenciei nos últimos anos. As peças seguem a técnica e a estética das oferendas tradicionais dos romeiros de Padre Cícero, deixadas em troca de bênçãos e supostos milagres, nas peregrinações rumo à capital da fé sertaneja.

Mas, deslocadas do sentido original, elas fazem parte da mostra “Rapture” — Rapto, em português —, que reúne 85 obras do artista, pensador e ativista chinês Ai Weiwei, em cartaz na Cordoaria Nacional, em Lisboa. Como se pode constatar por outros itens da mesma exposição, trata-se de criar e propor novos universos simbólicos e temáticos a partir de métodos, procedimentos e materiais da arte popular.

O resultado é uma desconcertante e arrebatadora explosão de significados. Assim como contou com a parceria, o subsídio e a cumplicidade dos artesãos juazeirenses, Weiwei recorreu à linguagem dos tradicionais papagaios chineses de papel e bambu — o que no Ceará chamaríamos de arraias, feitas pela meninada com papel de seda e palitos de coqueiro —, para compor uma sequência de enormes figuras tridimensionais e etéreas, relativas às mitologias populares de seu país, pairando sob a cabeça dos visitantes.

É uma exposição de forte caráter lúdico, mas, no conjunto, de efeito perturbador. Se, no lado direito do grande galpão no qual está instalada concentra-se o universo da “fantasia” (cuja visita deve ser feita logo de início, ao adentrar-se o recinto, conforme recomendam os guias e os prospectos do evento); do lado esquerdo está a ala da “realidade” (por onde deve terminar-se a visitação, sugere a curadoria).

A recomendação faz sentido. De início, o espectador deslumbra-se, por exemplo, com a artesania das esculturas em madeira e bambu, bem como pelo detalhismo de figuras mitológicas confeccionadas com pequenas peças plásticas pretas e brancas de Lego. Mas, no lado oposto, prende-se a respiração a cada passo.

Numa sequência de seis grandes caixas que lembram contêineres, é possível espreitar cenas que reproduzem, com figuras humanas confeccionadas em fibra de vidro, o drama de Weiwei quando, em decorrência de seu ativismo político e estético, foi preso durante 81 dias pelo regime ditatorial chinês.

Foi então encarcerado em um cubículo imundo, instalado em local secreto, vigiado 24 horas ao dia por dois soldados fardados — inclusive enquanto dormia, tomava banho e usava o vaso sanitário. Por uma pequena abertura, os visitantes podem observar a reconstituição de tais momentos, em uma perspectiva que desperta inevitáveis sentimentos de indignação, alteridade e claustrofobia.

Passei alguns minutos, respiração quase sempre suspensa, diante de uma escultura inflável colossal, de mais de quatro metros de altura e outros sessenta de comprimento, que reproduz um bote de refugiados com centenas de figuras humanas a bordo. Em 2018, a mesma escultura esteve instalada no Parque do Ibirapuera, em São Paulo.

Estas são, aliás, duas constantes da exposição: a temática dos refugiados e o diálogo com o Brasil. Weiwei esteve em nosso país e, além dos ex-votos de Juazeiro do Norte, produziu outras obras inspiradas na realidade nacional, a exemplo de dois couros de vaca marcados a ferro com o alfabeto armorial, desenvolvido por Ariano Suassuna. Na plaquinha informativa, informa-se que o ferro de marcar gado a fogo também foi usado, no Brasil, com o mesmo sentido indicativo de propriedade, para marcar escravos.

Os dramas apresentados pela obra de Ai Weiwei, assim como sua linguagem, são contemporâneos e universais. Ao longo da exposição, uma série de telas eletrônicas, postas lado a lado, exibem alguns de seus muitos documentários, realizados nos mais variados países, sempre retratando a tragédia de vítimas de atentados contra os direitos humanos.

Antes de sair do prédio da Cordoaria, dei uma última espiada nos ex-votos feitos por Weiwei em parceria com os artesãos de Juazeiro do Norte. Percebi-me, como poucas vezes, também um arrancado de minha própria terra. Mas, assim como o artista chinês — que agora mora no Alentejo —, profundamente acolhido neste lugar que também resolvi adotar como meu.

“Bem vindos ao meu país, Portugal”, disse o chinês Ai Weiwei na abertura da exposição em Lisboa. “Ou nos sentimos confortáveis ou desconfortáveis — e aqui me sinto confortável”, explicou. Concordei, ao lembrar daí, do Brasil governado pelo infame Bolsonaro.

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.