Walkyria Santos banca projeto de teatro com recursos próprios e sem empresário

Produção passou por Fortaleza (CE) em agosto e terá edições em João Pessoa (PB) e Natal (RN).

Escrito por
João Lima Neto joao.lima@svm.com.br

Aos quase 50 anos e com mais de três décadas de carreira, Walkyria Santos decidiu se lançar em um desafio diferente do que o público está acostumado a vê-la fazer. A cantora de forró está levando para os palcos de teatro um projeto autoral e intimista, construído com repertório afetivo e investimento próprio, sem empresário à frente da produção.

Em entrevista exclusiva à coluna, nos bastidores do "Wal com Vida", em Fortaleza, ela contou detalhes da iniciativa, falou sobre o processo de preparação e revelou que pretende reunir as gravações realizadas durante a turnê em um DVD, no fim deste ano.

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O projeto nasceu da vontade de Walkyria de revisitar músicas que fazem parte da memória afetiva dela. A ideia, que era um antigo sonho, começou a ganhar forma enquanto ela pesquisava em casa referências de grandes artistas que também transitam pelo teatro.

Fui me preparando em casa sozinha, ouvindo, pesquisando as grandes artistas que eu amo e que fazem teatro. Fui namorando com todo esse projeto. Ainda não me sinto preparada, mas decidi fazer. Estou chegando aos 50 e pensei: ‘Gente, eu vou fazer esse projeto quando? Quando tiver 60, 70?'
Walkyria Santos
Cantora

A cantora decidiu reunir a própria banda e colocar o espetáculo na estrada. A primeira apresentação aconteceu em Natal, no Rio Grande do Norte. Para ela, a estreia foi marcada pela mistura de insegurança e emoção diante de um formato diferente do habitual.

Eu não sabia se ia lotar o teatro, não sabia como me portar cantando essas músicas no palco. Foi um mix de emoções que você não tem noção. Mas, no final, foi tão prazeroso, tão gostoso
Walkyria Santos
Cantora

Um projeto movido pela memória afetiva

Walkyria Santos em teatro de Fortaleza com o projeto 'Wal com Vida'
Legenda: Walkyria Santos em teatro de Fortaleza com o projeto 'Wal com Vida'
Foto: João Lima Neto/SVM.

O repertório é um dos elementos centrais do espetáculo. Walkyria buscou músicas que remetem à adolescência e à infância em Monteiro, na Paraíba, além de canções que marcaram momentos ao lado da mãe.

"Eu quis trazer tudo que eu amo. Claro que não é tudo que eu amo, porque não dá para apresentar muita coisa em um show só. Mas quis trazer o que eu ouvia quando era adolescente, quando vivia naquela casinha", ressaltou.

Entre as lembranças, está a imagem da mãe lavando roupas enquanto ouvia rádio. “Quantas vezes eu não ouvi e vi minha mãe, numa pedra, com um touco embaixo, lavando a roupa e fazendo assim, porque antigamente você lavava a roupa batendo na pedra. Ela ouvia e cantava essa música no rádio".

O repertório também passa por nomes e músicas de diferentes gerações. Walkyria cita Fábio Júnior, além de canções como “Esperando Aviões” e “Vaca Profana”.

Quantas vezes eu não ouvi ‘Senta Aqui’, de Fábio Júnior, e chorei, me emocionei, com aquele homem maravilhoso. Quantas vezes eu não ouvi ‘Esperando Aviões’ e me emocionei? Eu sou do tempo de ouvir Gal, ‘Vaca Profana’, que quase ninguém da geração Z conhece. Eu sou desse tempo, meu amor
Walkyria Santos
Cantora

A seleção, porém, não significa uma ruptura com o forró. Pelo contrário: Walkyria afirma que são dois universos que convivem dentro da própria trajetória. “No forró, quando estamos no palco, cantamos para muitas gerações. Às vezes, aquela geração Z não está ali para ouvir determinada música e não se identifica. Então eu procuro agradar".

Teatro exige outra postura

Apesar da experiência de mais de 30 anos de carreira, Walkyria reconhece que o teatro apresenta desafios diferentes daqueles encontrados nos grandes shows de forró. 

“Esse palco de teatro é muito difícil. Não é o que eu costumo fazer. Tenho mais de 30 anos de carreira. Fiz um teatro, dois teatros, na verdade, que foram o show de Natal e o show de Recife. Ele é difícil", pontuou Walkyria. 

A acústica, a proximidade com o público e a ausência da movimentação característica dos shows de forró mudam completamente a dinâmica. “Está todo mundo ali parado ouvindo. Um erro fica super no palco. No forró dá para brincar, interagir, dar uma dançadinha, fazer uma graça".

Mesmo diante da pressão, ela prefere encarar o desafio sem se cobrar uma perfeição absoluta. “Eu quero entregar o meu melhor, mas, se o melhor também às vezes não sair, está tudo certo".

Produção independente e investimento próprio

Walkyria conta que decidiu assumir a produção dos shows ao lado da própria equipe, sem empresário responsável pela agenda do espetáculo. “Eu estou fazendo esses shows de forma independente. Não tem empresário. Estou indo na tora com a minha equipe”. O projeto já passou por Fortaleza e terá edições em João Pessoa (PB) e Natal (RN). 

A cantora admite que o projeto ainda não apresenta uma grande rentabilidade, mas explica que esse não é o principal objetivo. “Não estou tendo uma boa rentabilidade, mas não é o teatro que sustenta a Walkyria Santos. Isso aqui, para mim, é um aperitivo e um presente para o público. É um presente para mim".

Segundo ela, a equipe ficou responsável por buscar espaços, negociar as apresentações e estruturar a produção. “Esse show de teatro fui eu e a minha equipe. O Mecinho, a minha produção, foi atrás, amarrou, vendeu. Estou sem empresário nessa parte aqui".

Gravações vão virar DVD

Além das apresentações, Walkyria está registrando o projeto. A estratégia é gravar entre três e quatro faixas em cada edição do “Wal com Vida” e, posteriormente, reunir o material. A intenção é transformar os registros em um DVD completo no fim do ano.

Estou soltando elas de forma independente, mas, quando chegar ao final da turnê, no final do ano, vem o presente de Natal: o DVD completo de todos os 'Wal com Vida'
Walkyria Santos
Cantora

O lançamento das faixas, segundo a cantora, depende ainda das autorizações necessárias para as músicas. “Demora só um pouquinho porque a gente tem que pagar as autorizações, mas isso já está tudo encaminhado".

'Hoje eu consigo dizer não', diz cantora

O projeto também representa uma mudança pessoal na relação de Walkyria com a própria carreira. Ela conta que já recebeu convites para trabalhos semelhantes no passado, mas preferiu recusar porque não se sentia preparada.

“Eu fui convidada algumas vezes, mas recusei porque não me senti preparada", relatou a forrozeira.

Hoje, a cantora diz ter mais segurança para tomar decisões profissionais de acordo com aquilo que realmente deseja fazer. “Você não sabe o poder que é conseguir dizer: ‘Não quero, não vou, não gosto’. Precisou chegar até aqui para hoje eu conseguir pensar: ‘Ah, mas fulano vai ficar chateado’. Não. Que fique. Se eu não quiser, não vou. Se não me sentir confortável, não vou".

A maturidade também trouxe liberdade para reconhecer trabalhos e músicas que não representavam quem ela era. “Já fiz muitas coisas que não queria. Já cantei muitas músicas com as quais não me identifiquei. Hoje eu não faço isso".

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