Shakira no Brasil e o poder da música no cérebro

Artista fez show histórico no Rio de Janeiro no último sábado (2).

Escrito por
Italo Henrique ceara@svm.com.br
Legenda: Cantora reuniu 2 milhões de pessoas na Praia de Copacabana, no Rio de Janeiro.
Foto: Daniel Ramalho/AFP.

A passagem de Shakira pelo Brasil, no festival Todo Mundo no Rio, em Copacabana (RJ), mobilizou milhares de pessoas de todo o país e da América Latina. Para além do espetáculo, existe um fenômeno um pouco mais silencioso que vem sendo estudado pela ciência há muito tempo: a música como uma ferramenta de promoção da saúde e do bem-estar social.

Do ponto de vista da neurobiologia, escutar música é uma das atividades mais complexas que o nosso cérebro pode realizar e experimentar. O ato de ouvir uma canção ativa inúmeras regiões cerebrais simultaneamente, áreas responsáveis pela memória, emoção, atenção e pelo sistema de recompensa.

A música também modula a nossa química cerebral, fazendo com que neurotransmissores como a dopamina, associada à sensação de prazer, sejam liberados em maior quantidade. Isso ajuda a explicar por que a música pode reduzir o estresse, evocar lembranças associadas a uma canção específica e até provocar a sensação de arrepio ao escutar aquela melodia que marcou a sua adolescência, por exemplo. 

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Um dos efeitos mais estudados pelos cientistas é o impacto da música sobre a memória vivida. É muito comum que, ao ouvir uma canção presente em momentos marcantes da infância, como férias na casa dos avós, surjam lembranças de tranquilidade, do som da panela de pressão enquanto o feijão ficava pronto e até do cheiro daquele prato especial preparado nos encontros de família.

A música tem esse poder, ela nos faz projetar o futuro, revisitar o passado, permanecer no presente e transitar entre diferentes lembranças. Esse fenômeno é amplamente investigado, principalmente no contexto clínico.

Resultados de um ensaio clínico publicado no periódico científico Healthcare mostraram que a musicoterapia apresentou efeitos positivos e promissores na recuperação de memórias episódicas em idosos com quadros de demência e de doença de Alzheimer. Outros estudos também têm demonstrado como a música pode contribuir para a redução do declínio cognitivo e auxiliar na reabilitação psicossocial de pacientes com transtornos psiquiátricos.

Além disso, experiências coletivas como a participação em shows, festivais e karaokês fortalecem a criação de vínculos, a sensação de pertencimento e o bem-estar social. Em um mundo cada vez mais marcado pelo sofrimento mental e pelo bombardeio constante de informações nas mídias, a música surge como um refúgio e como uma importante estratégia de promoção da saúde e da qualidade de vida.

Assim, uma multidão cantando uma música junto a uma cantora ou um cantor não representa apenas um fenômeno cultural, mas também biológico e social, que a ciência tem demonstrado cada vez mais como sendo uma importante estratégia no cuidado à saúde e ao bem-estar individual e coletivo.

*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.

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