Acordo Mercosul-União Europeia: Ceará precisa cuidar do seu agro

Na cajucultura, por exemplo, há que trocar o cajueiro antigo pelo anão. O Vietnã já fez isso.

Escrito por
Egídio Serpa egidio.serpa@svm.com.br
(Atualizado às 06:51)
Legenda: Plantação de melão em fazenda do interior do Ceará que usa alta tecnologia para atender às exigências do mercado europeu
Foto: Divulgação
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Criou-se um “frissom”, um arrepio, um formigamento no meio do empresariado cearense diante da entrada em vigor, na sexta-feira passada, dia primeiro de maio, do Acordo de Livre Comércio entre o Mercosul e a União Europeia (UE). Não há dúvida de que esse importante pacto comercial dividirá a relação das duas partes em antes e depois dele.  

(Todavia, para que tudo funcione, é exigida a aprovação do documento pelos parlamentos europeus. Os agricultores e os governos da França, Polônia, Áustria e Irlanda são 100% contra ele. A tendência, porém, é de que a maioria dos países da UE o aprove).   

Deixemos de lado essas dúvidas e sejamos otimistas. Aqui no Ceará, ampliam-se bastante as chances para diferentes setores do agro e da agroindústria, entre os quais o da fruticultura, o da carcinicultura, o da tilapicultura e o da cajucultura. Mas será necessária, antes de tudo, uma série conjunta de providências da iniciativa privada com o governo estadual para a superação de gargalos importantes. 

Comecemos pela cultura do caju, cuja produção e cuja produtividade têm caído nos últimos anos, e o motivo são vários, incluindo a idade avançada do cajueiral de copa larga, que, sem produzir como antigamente, está sendo cortado e transformado em pelotas usadas como lenha pela indústria de cerâmica do Ceará.  

A saída para a viabilização da cajucultura cearense passa pelo plantio do cajueiro anão, tecnologia criada e desenvolvida há mais de 30 anos pela Embrapa Agroindústria Tropical, com sede no bairro do Pici, em Fortaleza, mas rapidamente apropriada não aqui, mas na Ásia, pelo governo socialista (modelo chinês) do Vietnã que hoje é o segundo maior produtor mundial (o primeiro é a Costa do Marfim, com mais de 1 milhão e toneladas/ano; o Brasil, que já foi líder, hoje é só o oitavo produtor).  

Custa caro plantar aqui uma floresta de cajueiro da variedade anã precoce, e esta é uma das razões pelas quais essa atividade tem sido grandemente reduzida não apenas no Ceará, seu maior produtor e exportador de amêndoas, mas em todo o Nordeste. Mas, com o acordo Mercosul-UE, essas dificuldades poderão ser superadas, desde que se unam, no mesmo sentido, o governo e o empresariado. 

Um setor que está pronto para tirar proveito do Acordo Mercusul-UE é o da carcinicultura – a criação de camarão. Há pelo menos três anos, os grandes carcinicultores do Nordeste – região que responde por 98% da produção nacional, sendo o Ceará o líder do setor, com 54% do que é produzido no país – estão mobilizados para a retomada das exportações para o mercado europeu.  

Há dois anos, uma comitiva do ministério da Agricultura do Reino Unido visitou as fazendas nordestinas de produção de camarão, considerando-as, em relatório, aptas para atender à demanda do seu mercado. Porém, nada mais aconteceu após essa visita e esse relatório. 

Cristiano Maia, maior criador de camarão do país e presidente da Camarão BR, entidade que reúne os maiores carcinicultores brasileiros, diz que o acordo Mercosul-UE “abre, realmente, uma nova e excitante perspectiva para a carcinicultura cearense, que está mesmo pronta para encarar o desafio de abastecer de camarão o mercado consumidor europeu”. 

A fruticultura cearense já exporta para a Europa, principalmente melão e melancia. As empresas Itaueira Agropecuária e Agrícola Famosa são líderes mundiais desse mercado. Por sua vez, a Finobrasa Agroindustrial, empresa da família Steinbruch, produz e exporta manga para a Europa, para o que tem fazendas de produção nos municípios de Beberibe e Quixeré. E a AGM Crops, do jovem empresário Altamir Martins, localizada na região do Baixo Acaraú, também produz e exporta manga para a Europa, EUA e Canadá. 

Há outros setores do agro cearense que podem ser, imediatamente, beneficiados pelo Acordo Mercosul-UE, e entre estes devem, obrigatoriamente, ser citados o das flores e plantas ornamentais, já tradicionalmente exportadas tanto para os EUA quanto para a Europa, e o da água de coco, que tem excelentes perspectivas, pois se trata de um produto muito consumido pelos europeus do Leste e do Oeste. A produção e o beneficiamento da água de coco é outro ramo da atividade agrícola a merecer um olhar especial do governo, que lhes pode conceder estímulos por meio da redução da burocracia ligada ao licenciamento ambiental, por exemplo. 

A Federação da Agricultura e Pecuária (Faec) já anunciou sua intenção de implementar um projeto que, em cinco anos, eleve para US$ 1 bilhão/ano as exportações do agro cearense. Para isso, sustenta seu esforço no sentido de transferir para a sua gestão alguns projetos de irrigação hoje administrados pelo Dnocs, os quais passariam a produzir frutas de alto valor agregado. Por enquanto, porém, esse esforço segue frustrado pela posição do Dnocs, que é radicalmente contra a ideia.   

Resumindo: há um grande mercado consumidor sendo aberto para os variados ramos da agricultura cearense e, também, para a sua agroindústria. O desafio a ser vencido é viabilizar essa janela de oportunidades. 

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