Temos elites que rejeitam o próprio povo

Protesto na comunidade do Jacarezinho, no Rio de Janeiro
Legenda: Protesto na comunidade do Jacarezinho, no Rio de Janeiro
Foto: Mauro Pimentel/AFP

A chacina do Jacarezinho é mais um capítulo na sistemática matança dos pobres, dos pretos, dos moradores de favelas, periferias, cortiços, alagados, do País. É só mais um triste episódio na história de uma sociedade em que as elites se formaram, desde os primórdios de sua constituição, eliminando, física e culturalmente, aqueles que se colocaram no caminho de seu projeto de conquista, de colonização e de “civilização”.

Nossas elites ainda descendem de um punhado de brancos, aristocratas e burgueses que, para tomar posse sobre terras que de tão grandes não podiam dominar, fruto de doações reais, eliminaram aqueles indígenas que resistiram e se colocaram em seu caminho. 

Tal como se faz, ainda hoje, com os remanescentes dos povos americanos, matar índios era limpar a terra, disponibilizá-la para a exploração econômica, era “povoá-la”, retirá-la da barbárie. Os indígenas violentados pela escravidão, pela aculturação, utilizados nas próprias guerras de extermínio contra outros povos, integrados de forma subalterna a sociedade que emergia, são a origem de nosso povo, desde lá, visto por esses brancos dominadores como preguiçosos, incivilizados, delinquentes, arredios, estorvo a ser retirado do caminho ou braço para o trabalho não remunerado.

O rapto das mulheres índias, o estupro sistemático, o uso do corpo das mulheres vistas como inferiores, quase como meros animais, a sedução de muitas delas por esses homens poderosos, deram origem a uma camada de mestiços sem um lugar definido na ordem social, uma camada de caboclos, mamelucos, colocados a serviço dos brancos como serviçais, trabalhadores, vaqueiros, matadores de seus antepassados. 

Eles que serão comemorados por dadas leituras da história do Brasil como um passo na direção do “necessário” branqueamento da população, serão os homens livres pobres, a vagar em meio a uma sociedade escravocrata e escravista. Ainda hoje, homens das elites se apropriam dos corpos das meninas pobres, das meninas indígenas, comprando no mercado do sexo a virgindade das filhas da pobreza extrema.

Essa elite colonizada e colonizadora foi também escravocrata. Mercadejaram, exploraram brutalmente, torturaram e mataram milhares e milhares de corpos negros, trazidos a bordo dos navios que faziam o comércio de carne humana. Essa elite aprendia, desde o berço, que vidas negras não importam, que os negros eram escravos por serem inferiores na própria escala da evolução da espécie humana, eram quase animais, nascidos para a servir e para a obedecer. 

Essas elites aprenderam, desde o berço, o racismo, a dividir e hierarquizar o mundo através da cor da pele. No Brasil as fronteiras passam ao rés da pele. 

Matar negros nunca foi um problema nesse país. Amarrados no tronco, eram chicoteados na frente de todos até a morte. A tortura dos pobres é prática legitimada e aceita em nossa sociedade desde então. Mas grande parte de nosso povo, mais da metade dele, descendem dos sobreviventes da escravidão, abandonados à própria sorte, após conquistarem, com muita luta e morte, o direito de serem livres. Tratados como restos indesejáveis e incômodos, como um estorvo à formação da nacionalidade, contingente de imprestáveis que se pretendeu até enviar de volta a África.

Nossas elites promoveram um projeto de branqueamento da população, viram na migração de sangue branco europeu a possibilidade de termos um outro povo, um povo que não as envergonhasse. Nesse processo, brancos deserdados e pobres na Europa, desembarcaram no país e cedo aprenderam que a cor da sua pele era um handicap que podiam explorar. Repetem a saga da colonização, cedo incorporam a mentalidade colonizadora e racista. Aqueles que conseguem ascensão social e passam a integrar as elites nacionais utilizam a cor da pele e a pretensa europeidade como marca de distinção em relação ao caboclo, ao caipira, ao negro, aos brasileiros, aos mestiços. 

A ideologia burguesa da meritocracia, esquecidos dos privilégios que tiveram, só por serem brancos (e muitos nem tão brancos assim) numa sociedade racista, os fazem desprezar os nacionais preguiçosos e retardatários. Entre eles se desenvolveram importantes núcleos do nazismo e do fascismo tupiniquim, como se constata ainda hoje.

Temos elites que desprezam e se acham superiores a seu povo, que são capazes de protagonizar cenas bizarras, como se dizerem patriotas, se vestirem de verde e amarelo e, ao mesmo tempo, levarem bandeiras americanas e israelenses para manifestações. As falas de desprezo do ministro da Economia em relação à empregada que viajava ao exterior ou ao filho de pedreiro na universidade, como sendo descalabros que aconteceram nos governos do PT, mostra bem como a “elite empresarial” brasileira pensa seu povo. 

As carreatas de carro de luxo exigindo que os pobres fossem entregues à morte através do vírus para que as empresas não fechassem, mostra que o episódio de Jacarezinho é apenas mais explícito do desprezo devotado a vida do povo no país, que assiste bestificado a um genocídio planejado por um ministério paralelo. 

Como não gostam de seu povo, não gostam do país, por isso continuam apoiando um governo de entrega da soberania e de desmonte da nação, que revela a sua face mais crua: antinacional, antipovo, racista, autoritário, perverso, intelectualmente medíocre, sem modos e sem civilidade alguma e, acima de tudo, genocida. 

Uma elite econômica e política que se formou através da matança daqueles que formariam nosso povo pouco está ligando para morte de pobre e negro, pois todos são vistos, de saída, como bandidos, preguiçosos, inferiores, desprezíveis. 

Como no passado, temos sempre aqueles mestiços, negros, pobres dispostos a servirem como capitães do mato, massacrando seus próprios semelhantes para ficarem com as migalhas que caem do banquete dos senhores. Mas apesar dessas elites, o povo brasileiro, em sua diversidade, em sua multiplicidade étnica e cultural, foi e continua sendo capaz de se afirmar e afirmar aquilo que tem de mais criativo, afirmar a própria vida, cotidianamente, em meio à miséria e à violência. Basta olharmos para o que o nosso povo foi e é capaz de fazer no campo da cultura, para termos a dimensão da incultura da parte mais retrógrada e reacionária das elites brasileiras.

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.



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