O Ceará é onde o Nordeste é mais nordestino?

Fazenda da Rachel de Queiroz, em Quixadá
Legenda: Foram os autores cearenses que produziram uma impactante literatura com temáticas locais, no final do século XIX
Foto: Arquivo

Semana passada, a convite do Museu do Ceará, debati sobre o lugar que o Ceará ocupa na elaboração discursiva e identitária do Nordeste. Embora a militância regionalista em torno do conceito Nordeste tenha sido feita, com grande intensidade, em Pernambuco, não foi a versão e a visão pernambucana sobre a região que veio a prevalecer.

Toda a movimentação cultural e política empreendida pelo grupo de intelectuais e lideranças políticas que passaram a girar em torno da figura do sociólogo Gilberto Freyre (1900-1987), desde que ele retornou ao Brasil, de seu período de formação nos Estados Unidos, em 1923, não foi suficiente para que a construção imaginária do Nordeste, em torno da antiga sociedade colonial e escravista dos engenhos banguês, das casas-grandes e das senzalas, se tornasse dominante na hora de se pensar e dizer o que define e caracteriza esse espaço regional.

Apesar de todo o trabalho de elaboração intelectual do que seria o Nordeste feito pelo Centro Regionalista do Nordeste, criado por Gilberto Freyre e seus companheiros de movimento regionalista e tradicionalista, no ano de 1924, com a realização de reuniões semanais, divulgadas pelo Diário de Pernambuco; apesar da publicação do Livro do Nordeste, feito como encarte desse jornal pernambucano, na data de comemoração de seu centenário, em novembro de 1925; apesar da realização do Congresso Regionalista do Nordeste, no Carnaval do ano de 1926, na cidade de Olinda, atraindo intelectuais, artistas e membros das elites políticas da maioria dos estados que comporiam o Nordeste, quando essa divisão regional foi oficializada, pela primeira divisão regional do País, feita pelo Conselho Nacional de Geografia (atual IBGE), em 1941, não será o Nordeste das árvores gordas, das sombras profundas, dos bois pachorrentos, de gente vagorosa e arredondada quase em sanchos-panças pelo mel de engenho, pela aguardente, pela garapa de cana, pelos vermes, pela erisipela, pelo ócio, tal como Freyre define a região, cuja certidão de nascimento seria o seu livro, publicado em 1937, Nordeste, que prevalecerá.

Nesse livro, logo na abertura, ele já se queixa que o Nordeste que vai se tornando dominante no imaginário nacional, não era aquele onde nunca deixa de haver uma mancha d’água, um avanço de mar, um rio, um riacho, o esverdeado de uma lagoa, onde a água faz a terra mais mole, um Nordeste oleoso onde noite de lua parece escorrer um óleo gordo das coisas e das pessoas.

A palavra Nordeste estaria irremediavelmente desfigurada pela sua associação com as obras contra as secas, que ficaram conhecidas como obras do Nordeste e quase não lembraria senão esse fenômeno.

O Nordeste estaria associado aos sertões de paisagens duras doendo nos olhos, da areia seca rangendo debaixo dos pés, dos mandacarus, dos bois e cavalos angulosos; um Nordeste onde as figuras de homens e bichos se alongavam quase como as figuras desenhadas pelo pintor El Greco.

Nesse trecho do livro de Freyre, encontramos a chave da explicação do porquê a produção cultural e artística de autores cearenses, o imaginário construído para o ser do Ceará e para o ser cearense, terminou por ser vitorioso na hora de se dizer o que é o Nordeste. 

O conceito Nordeste começa a circular com maior intensidade no final da década de dez do século passado, quando o presidente Epitácio Pessoa, único político dos estados do chamado Norte a alcançar a direção do País, na Primeira República, resolveu empreender um conjunto de obras contra as secas. 

É no decreto que oficializa a construção dessas obras, assinado no dia de Natal, do ano de 1919, que o termo Nordeste aparece pela primeira vez num documento oficial. A repercussão nacional da construção dessas obras e dos inúmeros casos de corrupção e desvio de recursos a que deram origem é que faz circular o conceito Nordeste, daí, como diz Freyre, ele já nascer vinculado à temática das secas e remeter ao espaço do sertão, ao espaço sujeito aquele fenômeno, a área semiárida da região.

Toda a produção cultural do Ceará, desde o século XIX, tinha na seca e no espaço sertanejo suas principais temáticas. Até a chamada grande seca de 1877-1879, dizia-se seca do Ceará, para se referir a esse fenômeno. Foram os autores cearenses que produziram uma impactante literatura com temáticas locais, no final do século XIX, abordando pioneiramente os temas que se tornarão centrais na definição da identidade nordestina: a seca, o cangaço, o coronelismo e o messianismo. 

Quando o conceito Nordeste surge, ele vai ser, imediatamente, atrelado a esse imaginário construído por autores como Franklin Távora (1842-1888), Antônio Sales (1868-1940), Domingos Olímpio (1851-1906), no campo literário; Rodolfo Teófilo (1863-1932) na literatura e no ensaísmo histórico e sociológico; o Barão de Studart (1856-1938), na historiografia.

A própria construção de uma interpretação da história do Brasil, que privilegiava a penetração para o interior, feita pelo cearense Capistrano de Abreu (1853-927), foi importante para se estabelecer essa relação entre Nordeste, sertão, sertanejo, caatinga, pecuária, vaqueiro, que dá ao espaço cearense, completamente localizado no sertão, espaço da caatinga por excelência, sociedade formada quando da interiorização da ocupação do território da colônia portuguesa através da atividade pecuária, uma centralidade quando se trata de dizer qual a paisagem natural e humana, qual a história da região.

O interessante é que é o próprio Gilberto Freyre que faz um gesto definitivo para que o Ceará acabe sendo visto como o estado nuclear, quando se trata de entender a própria formação histórica e sociológica da região, ao patrocinar a publicação, na coleção Documentos Brasileiros, da editora José Olympio, da qual era diretor, do livro do jurista cearense Djacir Menezes (1907-1996), no mesmo ano em que publicou o seu livro Nordeste, 1937. 

Foi o próprio Freyre que deu nome ao livro, o intitulando O outro Nordeste, fazendo dele uma extensão do seu e, ao mesmo tempo, acabando por reconhecer a existência de uma outra versão e uma outra visão do Nordeste, aquela elaborada pelos intelectuais cearenses, que acabou por prevalecer, fazendo do espaço cearense o núcleo de significação da região, pela própria recorrência das secas e suas tragédias e pela centralidade estratégica que esse tema passa a ter para as elites nordestinas disputarem verbas, obras, cargos, instituições, benesses, incluindo a elite pernambucana.

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.