De Bacurau ao chapéu usado por Juliette: devemos nos orgulhar do cangaço?

Bando de Lampião
Legenda: A mitificação do cangaço começou quando o cangaceiro começou a desaparecer
Foto: Divulgação/GESP

Primeiro foi o filme Bacurau, de Mendonça Filho, a reatualizar o imaginário do cangaço, com a famosa cena das cabeças degoladas dos integrantes do bando de Lampião, arrumadas em pose de retrato de família, na escadaria da igreja. Depois o fenômeno Juliette, com sua personagem, construída pelo marketing, portando sempre, orgulhosa, de cabeça erguida, um chapéu de cangaceiro. Nas redes sociais, até grupos feministas a se nomear de cangaceiras, símbolo que seria de bravura, de resistência, de coragem, de luta. 

Em tudo isso, uma certeza, o cangaço e o cangaceiro fazem parte das mitologias que sustentam o discurso da identidade regional nordestina, e, como toda mitologia, tem muito pouco a ver com a realidade histórica do que foi esse fenômeno e foram esses personagens. Desde a Grécia antiga, o discurso da história surgiu para se contrapor ao mito, para colocar no tempo e na realidade terrena e prosaica dos homens, aquilo que parecia habitar o intemporal e as esferas do sagrado, do mitológico.

O cangaço é um fenômeno que, com essa designação, surgiu durante a seca de 1877-1879, embora banditismo rural já existisse, anteriormente. Nasceu como bandos de antigos jagunços, homens armados a serviço dos coronéis, que deixados à própria sorte por causa da seca, resolveram usar as armas para atacar os comboios com os socorros públicos ou pilhar as fazendas e grupos de retirantes que seguiam pelas estradas.

Com o fim da seca, tendo descoberto um meio de vida e provado da liberdade de agirem por conta própria, sem estar debaixo das ordens de um mandão, muitos desses saqueadores e bandoleiros continuaram agindo independentemente.

Desde o início, portanto, o cangaceiro será uma figura ambígua, podendo saquear e roubar tanto ricos quanto pobres, realizar seus “serviços” de forma independente ou se colocar às ordens de um coronel, de um coiteiro (que também podia ser um modesto camponês) que o protege, o abastece de armas, o abriga em fuga de um entrevero com as polícias ou volantes, que lhe salva a vida quando chega ferido e, em troca, ele põe seu braço armado a serviço das vinganças e interesses do seu protetor, recebendo, muitas vezes, pelo “serviço” prestado.

A mitificação do cangaço começou quando o cangaceiro começou a desaparecer. Quando ele existia e metia medo em todo mundo, era tratado como facínora, como aborto da natureza, sendo explicado, inclusive, como resultado de atavismos étnicos e da hereditariedade do sangue “inferior e selvagem” de índios e negros, eles seriam tarados físicos e morais. 

Quando a ditadura do Estado Novo (1937-1945) resolveu, após a morte de Lampião e Corisco, proibir que a imprensa designasse qualquer criminoso de cangaceiro, por causa da aura de excepcionalidade que esse nome conferia a quem era assim chamado, o cangaceiro começou a deixar o plano a realidade e ir se alojar no plano do mito. 

Para isso, muito contribuiu a literatura popular de folhetos, que tornou o cangaceiro, notadamente Lampião, um de seus personagens recorrentes, mesmo que fosse para tratar de como chegara ao inferno e como tomara aquele território do demônio.

Mas será decisivo para a constituição do mito do cangaceiro autores como os cearenses Djacir Menezes (1907-1996), com seu livro publicado em 1937, O outro Nordeste, e Rui Facó (1913-1963), com seu livro publicado em 1963, Cangaceiros e fanáticos, que abordam as causas sociológicas do cangaço, sua ligação com a miséria e a exploração das massas camponesas, com o monopólio da terra, com o não acesso à educação, à saúde e à justiça por parte dos homens do campo. 

O cangaceiro, nessas leituras, seria um revoltado, um rebelde a quem faltava o projeto político correto de transformação do mundo, cuja valentia e destreza com as armas podiam ser colocadas a serviço da revolução social.

O cangaço esteve sim umbilicalmente ligado à luta pela terra, às lutas de parentelas pelo controle do poder local e pelo controle de de propriedades cada vez maiores.

Se a maioria dos cangaceiros vinha das camadas populares e entrava no cangaço em busca de um meio de vida, atraídos pelo seu caráter aventureiro e nômade, oportunidade de dar expansão a demonstrações de valentia, coragem e destreza nas armas, traços que definiam o padrão hegemônico de masculinidade; suas principais lideranças, como Sinhô Pereira, Antônio Silvio e Lampião não eram pobres, desprovidos de terra, pelo contrário, entraram no cangaço porque viram suas terras e posses desapropriadas violentamente por vizinhos, ligados a outras parentelas. 

O cangaceiro estava longe de ser o revolucionário que as esquerdas pintaram, nos anos sessenta, ele aspirava a ser um coronel, como os fatos de Lampião passar a exigir que o chamassem de capitão e a correspondência que enviou ao presidente do estado de Pernambuco, Estácio Coimbra, propondo a divisão do governo estadual, claramente indicam.

Devemos estudar e entender historicamente o fenômeno do cangaço, mas fazer dele um mito regional, tomá-lo como motivo de orgulho, fazer dele culto, como fazem, inclusive, muitos intelectuais e artistas da região, é uma extravagância inaceitável.

Ver mulheres se nomeando de feministas e cangaceiras é constatar o quanto em nosso País a história é desconhecida. O cangaço era o reino da masculinidade autoritária, machista e patriarcal, onde as mulheres eram maltratadas, raptadas, sistematicamente estupradas. 

Muitas das cangaceiras, chegaram ao cangaço por serem raptadas, levadas à força, mantidas sob ameaça e cárcere privado, ocupando lugares subalternos, tidos como lugar de mulher. Não descarto o fato de que uma ou outra mulher se acostumou, se afeiçoou àquela vida e até a seu raptor, todo fenômeno humano é complexo e assim deve ser tratado, daí porque a simplificação mítica não é o mais adequado. 

Não devemos nos envergonhar do cangaço, pois não era mera selvageria e barbárie, mas também não devemos tecer loas regionalistas a um fenômeno que em nada contribui para o aprendizado necessário de vivermos em um Estado democrático de direito, onde o macho valente e armado não se ache no direito de atacar uma mulher indefesa (como acaba de ocorrer na cidade do Recife), onde o respeito à lei venha acompanhado da luta política democrática por conquistas sociais. 

O cangaceiro deve ser deixado no passado, pois seu mito só reforça a heroicização da violência individual e pessoal, só veicula um modelo de ser masculino, de ser homem, que deve ser superado: o modelo do cabra macho que lava a honra com sangue, que afirma sua virilidade e masculinidade no recurso à violência sanguinária. 

Cultuar o cangaceiro é cultuar a violência e não precisamos de modelos de seres violentos. Os fascistas com seu amor as armas já estão aí infelicitando nossos dias. Mulheres, leiam o livro de Adriana Negreiros, Maria Bonita: sexo, violência e mulheres no cangaço, antes de se nomearem de cangaceiras, como se fosse um gesto de afirmação feminina.

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.