A solidão tecnológica: internet e alienação

As relações sociais mediadas pelas máquinas geram coletivos meramente funcionais e episódicos

Legenda: A corporeidade humana, com sua dimensão erótica, afetiva, passional, cada vez mais vai sendo substituída pelos avatares e figuras digitais
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A solidão é um estado e um sentimento característicos da vida moderna. A modernidade ocidental nasceu com a destruição das formas comunitárias de existência (a tribo, a aldeia, o clã, o feudo, a corporação de ofício, a cidade encerrada entre muros) e a emergência da vida em sociedade, cada vez mais marcada pela fragmentação e diferenciação.

A modernidade destruiu as formas coletivas de identidade e fez surgir o indivíduo, a forma individuada de se ver, de se dizer e de se colocar perante o mundo. Com a Reforma Protestante, no século XVI, a relação com a religião e com a própria divindade deixou de ser intermediada pela instituição da Igreja, para ser mais direta e pessoal.

A fé e a crença individualizaram-se e deram origem a uma diversidade de credos, rompendo com a pretensão universalizante do catolicismo. Com o movimento da Renascença, o artista, antes submetido as normas e códigos corporativos, se individualiza e torna-se a expressão do que seria um gênio e um talento individual.

O mundo moderno, notadamente a partir do século XVIII, produz a emergência da figura do Homem, um singular coletivo que vem, em grande medida, ocupar a centralidade no universo que antes pertencia a Deus que, de certa forma, é retirado para fora do mundo terreno, físico e natural, indo habitar um extramundo. O Homem, ser dominador da terra, torna-se, assim, mais solitário, mais distante do seu Criador. Mais uma vez se vê abandonado e destinado a se virar sozinho. Mas, é também na modernidade, que os avanços científicos destroem a antiga unidade do cosmos, que o Homem vai se ver separado e diferenciado da Natureza.

O conceito moderno de Natureza não inclui, como fazia o antigo conceito de cosmos, o ser humano como um espelho e continuidade de todos os seres e entes que compunham o universo. A busca romântica por um retorno ao seio da mãe Natureza e por um reencontro com os deuses, com um reencantamento do mundo, nascem dessa percepção de que o Homem dominador do mundo, o Homem da consciência e da razão, é um ser sozinho, apartado e alienado da natureza e da divindade.

O mundo moderno dá origem a um crescente sentimento de si, emerge a concepção de que cada indivíduo possui uma essência, uma verdade, uma personalidade, um caráter, que se alojam no interior mais profundo do indivíduo.

Os saberes do campo psi (psicologia, psiquiatria, psocanálise) surgem dessa busca pela verdade do sujeito através de uma escavação sem fim da própria subjetividade, da interioridade de cada um. Buscamos a nossa verdade através de um olhar que se volta por sobre nós mesmos e que busca nesse mergulho para o interior, uma busca que só pode ser feita sozinha, solitariamente, o que temos de verdadeiro.

Torna-se central, desde o século XVIII, por exemplo, a pergunta sobre o nosso sexo verdadeiro, pergunta estranha a outras épocas. Passamos a interrogar incessantemente nossos desejos, nossas paixões e pulsões, as nossas carnes, os nossos órgãos sexuais, as nossas preferências sexuais, como se elas tivessem o poder de dizer quem somos.

A sociedade contemporânea é marcada pelo crescimento das cidades e pela saída em massa das pessoas dos campos. A grande metrópole é o cenário onde contraditoriamente uma massa humana se sente e se torna cada vez mais solitária, dada as rupturas com os laços sociais tradicionais (familiares, de vizinhança, de apadrinhamento, comunitários, costumeiros) e com o afrouxamento das relações de pertencimento e proximidade.

Estar em meio a uma multidão não garante o não se sentir solitário, pode até mesmo potencializar a sensação de estar só. É na grande cidade que se desenvolvem formas de vida burguesas e populares que permitem ou que levam ao estar sozinho. A individuação das profissões liberais, muitas delas que convocam o estar só, como a profissão de escritor ou de cientista, fazem nascer a solidão produtiva.

Com o surgimento do romance tanto a leitura, como a escrita literária, se individualiza, levando ao declínio do narrador tradicional, àquele em torno do qual se congregava um grupo de pessoas, para ouvi-lo contar. A sociedade burguesa passa a valorizar a intimidade e a privacidade, valores que vão na contramão da vida em grupo e em coletividade, que positivam o estar sozinho.

Com o desenvolvimento da grande indústria, com a linha de montagem e as máquinas, ao mesmo tempo que grandes aglomerados de trabalhadores são constituídos, se amplia a tentativa do capital de evitar que eles venham a formar coletivos, que eles venham a desenvolver uma consciência de classe.

À medida que os poderes modernos perceberam o perigo das massas e dos grandes ajuntamentos de pessoas trazidas pelas novas formas de trabalho, tecnologias e formas de gestão e distribuição dos trabalhadores foram sendo criadas para gerar uma fragmentação cada vez maior, um isolamento cada vez maior. Quanto mais sozinho, quando mais solitário estiver um homem e uma mulher menor a capacidade de articular qualquer forma de resistência ao capital e aos poderes que a ele servem.

A emergência das novas tecnologias digitais, as propostas de home office, do trabalho em casa, do trabalho não presencial é uma forma de isolar e fragmentar o trabalhador. Contraditoriamente, o desenvolvimento das tecnologias de comunicação e informação vem sendo utilizadas (propositada e planejadamente) para a ampliação da alienação do trabalho, para tornar os trabalhadores cada vez mais dependentes de comandos que escapam a seu controle.

O próprio espaço da fábrica, a materialidade do lugar de trabalho, que podia ser fator de construção de solidariedades e de sentimentos de pertencimento e participação em um coletivo, vai dando lugar ao espaço atomizado da própria residência do trabalhador. As relações sociais mediadas pelas máquinas geram coletivos meramente funcionais e episódicos, ajuntamentos intermitentes e burocráticos, coletivos facilmente controláveis, vigiáveis e manipuláveis.

A corporeidade do trabalhador, a corporeidade humana, com sua dimensão erótica, afetiva, passional, cada vez mais vai sendo substituída pelos avatares e figuras digitais, facilmente falsificáveis e modeláveis. Caminhamos, inclusive com reflexos perversos no campo da vida publica, da atividade política, para a criação de realidades paralelas, em grande medida míticas e imaginárias, que passam a valer como sendo a realidade para grupos fracionados e fragmentados.

Os laços linguísticos, simbólicos e culturais, que sedimentam a vida coletiva, se veem ameaçados pela fragmentação do mundo simbólico e imaginário, impossibilitando qualquer consenso em torno da realidade, o que estimula conflitos, violências e desentendimentos de toda ordem.

As instituições sociais de mediação (família, escola, Estado, universidades, meios de comunicação, partidos políticos, sindicatos), fundamentais para a construção de consensos coletivos, que façam as pessoas agirem em grupo, perdem espaço para as opiniões pessoais e a fala privada e individualizada. A fala pública e coletiva perde espaço para as falas solitárias, assim como os modelos de vida e sociabilidade são desafiados por comportamentos egoicos, egoístas, egocêntricos, individualistas.

A internet permite a formação do fenômeno das bolhas, dos falsos coletivos que se formam e giram em torno de dadas narrativas, de dados símbolos, de dados modelos de sujeito, cujo impulso não é se integrar a vida social e coletiva, mas dela prescindir, ao ponto de, mesmo entre os componentes da bolha, evitar-se o contato pessoal e o encontro corpo a corpo. A internet tem estimulado comportamentos associais, de isolacionismo, de medo e fobia do face a face.

Até mesmo as relações afetivas e sexuais se desmaterializam, passam a ser vividas através de realidades simuladas e próteses, com uma exacerbação da cultura da vergonha, da culpa, por um lado, e da pornografia, por outro. Não tem sentido sermos saudosistas ou reacionários e querermos a volta a um mundo sem internet e sem tecnologias digitais, mas temos que ter em relação a elas uma atitude crítica, fazer um questionamento das relações de fascínio e de alienação, que elas tendem a provocar.

É preciso atentar para as artimanhas do capital, que estão no nascedouro e funcionamento dessas tecnologias, que nos são ofertadas por empresas e não por uma rede desencarnada.