Tatiana Roma abre o jogo sobre assédio sofrido no Náutico; ouça entrevista completa

A ex-diretora da Mulher do Náutico denuncia o superintendente do clube por assédio sexual e moral

Tatiana Roma falou com repórter Denise Santiago sobre ocorrido no Náutico
Legenda: Tatiana Roma falou com repórter Denise Santiago sobre ocorrido no Náutico
Foto: Divulgação

Ser apaixonada por um clube e ter a oportunidade de trabalhar com o que ama. Em 2018, Tatiana Roma conseguiu concretizar esse desejo ao assumir a Diretoria da Mulher do Náutico. De acordo com os diretores na época, o setor ofereceria mais espaços para as mulheres e tinha como principal objetivo combater o machismo nos estádios. A pasta seguia três vertentes: esportiva, comercial e social. Tatiana à frente, otimista por esse início, a diretora apesar do otimismo, sabia que o processo seria longo. Talvez, ela não imaginaria que seria vítima das causas que lutava.

Três anos após assumir a diretoria, Tatiana resolveu falar o que aconteceu no Náutico. Deu voz ao que acontece a milhares de mulheres que sofrem assédio no trabalho. Ela decidiu dar um basta. Acusado por ela, o superintendente financeiro do Timbu, Errisson Melo. “A primeira vez que recebi a cantada, era ele me perguntando se eu já tinha feito sexo a três, que minhas sardas davam tesão. Parei de usar salto porque, à princípio, eu cheguei a pensar que minhas roupas não eram adequadas”, ressaltou Tatiana.

Ouça a entrevista completa no Podcast Elas no Esporte: 

 

De acordo a psicóloga Patrícia Marinho, as mulheres quando sofrem abusos, acabam infiltrando uma situação como fossem as erradas, culpadas por aquele assédio. “Acabam gerando uma crença nuclear que geralmente “eu” estou errada, “eu” não posso me defender e em alguns casos, o abusador age para que a mulher se sinta culpada. "A gente vive hoje numa cultura que os impulsos e instintos masculinos são muito incentivados e os impulsos femininos muito segurados, é muito comum que mulheres ou pessoas que sofreram abusos na infância, sintam essa culpa”. Ressaltou Patrícia.

Em maio de 2020, Tatiana pediu demissão da diretoria do Náutico, ainda abalada pelo assédio sofrido, um ano depois ele teve coragem de se manifestar.

“É muito difícil para uma mulher que sofre abuso denunciar logo de cara, quando eu pedi demissão alegando o ocorrido, Erisson Melo logo quis mudar a situação” ressaltou Tatiana.

Segundo a ex-diretora, um membro da torcida organizada Fanáutico, conhecido como “Negão”, a procurou informando que Erisson pediu para que o torcedor denunciasse Tatiana por racismo, algo que de acordo com ela, não tinha ocorrido. Na época, o presidente do Conselho do Clube Alexandre Carneiro, recebeu a informação e decidiu tratar como um acordo extrajudicial.

Tatiana Roma foi diretora do Náutico
Legenda: Tatiana Roma foi diretora do Náutico
Foto: Reprodução

Ainda sobre as denúncias de importunação sexual, Tatiana informou que Alexandre a “pressionou” para manter a situação em sigilo e que o abusador (que era irmão do presidente) iria pagar cestas básicas, na forma de “pagar” o crime cometido.

“Eu assinei o documento dando um voto de confiança que ele faria doações ao Lar do Neném, ONG que acolhe crianças em Recife, aproveitei e retirei o processo da denúncia do Conselho. Só que Errisson não doou as 50 cestas básicas. Ele fez uma transferência no valor de R$ 2,5 mil, que não chega perto do valor de 50 cestas básicas. Perdi a confiança e fiz uma nova denúncia ao Conselho pedindo o afastamento de Erisson, a partir minha vida se transformou em um inferno”, manifestou Tatiana.

Em 12 de Novembro deste ano, a denúncia virou caso de polícia e ainda ganhou mais repercussão quando Tatiana externou a dor nas redes sociais. “Tive muito receio, mas fui abraçada por homens e mulheres e principalmente torcedores”, concluiu a ex-diretora. No dia seguinte após as denúncias, alguns torcedores protestaram a frente do clube, com faixas e gritos de ordem.

Conversar com a Tatiana é também sentir a dor, a humilhação, a vergonha de milhares de mulheres que ainda sofrem com assédio. O medo, a insegurança, a dificuldade de identificar as situações de importunação sexual, também são algumas questões. Só dizer basta, talvez não seja suficiente é preciso ter mais cuidado, com as mulheres que passam por esta situação.

Procurado pela reportagem, o Náutico se pronunciou através de notas no site oficial do clube. Confira:

Nota 1 

Nota 2

Nota 3