Cartas de quarentena: aos professores das nossas vidas

Prezados,

Se hoje sabemos escrever e somar - e sonhar  -, devemos às horas que passaram nos ensinando as formas concretas (e abstratas) de nos inserirmos nos nossos mundos. Chegamos à escola (da vida) e cruzamos o desafio de desbravar rotas de saberes absolutamente desconhecidas para tantos de nós. Foram muitas etapas, vencidas e perdidas.

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Muitos de nós, que há tempos expandimos horizontes sentados de frente às suas lousas de giz, quadros brancos, livros, palavras, contas, canções... hoje, estamos paralisados. Desconsertados diante das nossas próprias questões, das dúvidas dos nossos filhos, da incerteza do daqui a pouco. Somos adultos, e cheios “por quês?”

Vocês devem estar se perguntando o motivo dessas linhas. Pois bem! Essa carta é, na realidade, um pedido: mestres, professores, sábios, profetas, não importa como são chamados... ensinem-nos a a-pren-der. Precisamos descobrir se é necessário recomeçar. Partir de onde paramos? Chegamos a parar?

Sei bem que as dúvidas de agora não estão em lição nenhuma. Por isso, mais que nunca o urgente é aprender a aprender.

Precisamos novamente saber como ser e existir nesse mundo de agora. E o porvir? Quem sabe... De que forma habitar o universo, sua concretude, mas também as suas abstrações e os efeitos em nós causados. Entretanto, para isso, cabe-nos, mais que nunca, agora, a lição de instruir-nos nessa travessia. Sobre o passado, o presente da vida. Sobre nós, sobre o outro, os tantos mundos de todos nós. São aulas pra vida.

Vocês já devem ter percebido, professores das nossas vidas, mas Muitos de nós estão presos apenas dentro de suas casas. Muitos de nós, sozinhos. Tantos outros se arriscam mundo afora, expostos ao que ainda não é possível combater. Tensão por fora, por dentro.

Alguns também estão presos dentro de si, do desequilíbrio constate de não saber o que fazer, por quanto tempo ainda será preciso o tempo passar.

O luto de muitos de nós se expande diante da impossibilidade de velar entes. Foram tantos amores perdidos. Beijos e abraços agora desperdiçados, em braços e bocas vazios. Silêncios. Corações cheios de falta. Perdemos uma, duas, várias vezes. Já não sabemos por onde (re)começar. Como resistir se tantos estamos incompletos. Quem sabe ? Não há resposta correta quando a morte nos arranca pedaços. Aprender é a nossa saída. Remédios, caminhos, crenças... De onde partir? Qual o caminho da sabedoria ?

Portanto, prezados professores, como sabemos que não há mais tempo a perder, tomemos juntos o rumo da tarefa que nos é tão cara na vida: a lição de aprender, seja na sala de aula, na mesa de jantar, sob os ruídos da cadeira de balanço, no choro dos recém-chegados, no brilho dos olhos, de alegrias ou lágrimas. Na tarefa que copiamos da lousa ou na travessia que descobrimos ao nos dar conta que mesmo despedaçados, por sorte, ainda estamos aqui, na escola da vida.