Do cavalo ao jumento: qual seu tipo de vida financeira?
Há alguns dias, publiquei um vídeo montando um cavalo. O animal era bonito, tranquilo e, mais do que isso, havia entre nós uma sintonia perceptível. Eu não estava apenas montando; havia equilíbrio, conexão e confiança.
Logo depois, uma amiga postou um vídeo em resposta: nela, aparecia como se estivesse num jumento descontrolado, correndo sem rumo, sem freio e sem conexão alguma. Ao comentar, ela disse: “isso é a analogia perfeita para a vida financeira de cada um de nós: a sua, equilibrada, e a minha, desgovernada”.
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A comparação foi certeira. Assim como na montaria, a forma como conduzimos nossas finanças depende de autoconhecimento, disciplina, equilíbrio e da capacidade de criar conexão com a nossa realidade.
A diferença entre cavalgar em harmonia e ser arrastado por um jumento disparado é a mesma entre organizar as próprias contas ou viver refém do descontrole financeiro.
Equilíbrio: a base de tudo
Montar um cavalo exige equilíbrio. Não se trata apenas de força nos músculos, mas de postura, de saber distribuir o peso do corpo e respeitar o ritmo do animal. O mesmo acontece na vida financeira: equilíbrio é a base de qualquer estratégia de longo prazo.
Muitas pessoas gastam mais do que ganham, vivem no cheque especial ou se apoiam em cartões de crédito como se fossem renda extra. É como tentar montar um cavalo sem sela, pendendo para um lado, sem consciência do risco de cair a qualquer momento.
O equilíbrio financeiro exige planejamento: saber quanto se ganha, quanto se gasta, e estabelecer limites claros para não perder o controle.
Um exemplo prático é o uso do cartão de crédito. Quando usado com responsabilidade, pode até ser um aliado – acumula pontos, oferece prazo de pagamento e traz conveniência. Mas, sem equilíbrio, ele se torna um “jumento disparado”: juros altos, dívidas impagáveis e sensação de sufocamento.
Conexão: conhecer o terreno e o parceiro de jornada
Quem monta sabe que não basta sentar sobre o cavalo; é preciso se conectar com ele. Cada movimento, cada sinal, cada olhar do animal comunica algo. Se o cavaleiro ignora, perde a direção.
Na vida financeira, essa conexão representa o conhecimento da própria situação. Não adianta sonhar com investimentos sofisticados se não se conhece nem a realidade básica das próprias contas. Conexão é olhar para os extratos, entender os fluxos de entrada e saída, reconhecer os próprios erros e acertos.
Um empresário, por exemplo, que não acompanha seu fluxo de caixa, está desconectado da realidade do negócio. Vive como quem fecha os olhos enquanto o cavalo dispara: pode até acreditar que está avançando, mas, na prática, está à beira de um tombo.
Autoconhecimento: reconhecer limites e potencialidades
Montar a cavalo também ensina sobre autoconhecimento. Há pessoas que são naturalmente mais ousadas, que querem acelerar; outras preferem a cadência lenta e firme. O bom cavaleiro reconhece seu estilo, mas, acima de tudo, reconhece seus limites.
No campo financeiro, autoconhecimento significa compreender seu perfil de consumo, seu apetite ao risco, seus gatilhos emocionais. Quem sabe que compra por impulso deve adotar mecanismos de proteção – como esperar 24 horas antes de qualquer gasto acima de determinado valor.
Quem se conhece como investidor conservador não deve se lançar em operações de alto risco só porque ouviu que um amigo “ganhou muito”.
Autoconhecimento é entender que cada escolha tem consequência. Da mesma forma que forçar um cavalo além de seu ritmo pode gerar acidentes, ignorar a própria realidade financeira é receita certa para desequilíbrio.
Disciplina: o treino que evita quedas
Nenhum cavaleiro nasce pronto. É preciso treino, paciência e repetição. O mesmo vale para a educação financeira: disciplina é o que transforma conhecimento em hábito.
Guardar uma parte da renda todo mês, registrar os gastos, rever o orçamento, resistir à tentação das compras impulsivas: tudo isso exige disciplina. E, assim como o cavaleiro que pratica diariamente consegue cavalgar com mais naturalidade, a pessoa que cultiva disciplina financeira alcança estabilidade com menos esforço no futuro.
Um exemplo claro é a reserva de emergência. Quem tem disciplina para poupar regularmente consegue enfrentar imprevistos – uma demissão, uma doença, um conserto inesperado – sem se desesperar. Quem não tem, acaba à mercê de empréstimos caros e dívidas acumuladas.
O perigo da falta de controle
A pessoa, no vídeo, parecia ser arrastada por um jumento disparado. A cena era engraçada, mas reveladora. Essa é a imagem perfeita de quem vive sem controle financeiro: não define metas, não sabe para onde o dinheiro está indo e, no fim, é levado pela força dos acontecimentos.
Quando o salário entra, já está comprometido com dívidas antigas. Quando surge uma oportunidade, falta recurso para aproveitá-la. Quando aparece um problema, não há reserva para enfrentá-lo. É como tentar guiar um animal que não responde ao comando: a vida financeira passa a guiar a pessoa, e não o contrário.
O prazer de cavalgar em harmonia
Por outro lado, quem consegue alinhar equilíbrio, conexão, autoconhecimento e disciplina descobre o prazer da liberdade financeira. Não significa viver sem problemas, mas estar preparado para enfrentá-los.
Assim como cavalgar em harmonia proporciona confiança e até prazer estético, administrar bem o dinheiro gera tranquilidade e realização. O indivíduo deixa de ser refém das circunstâncias e passa a ser protagonista de sua própria jornada. Pode planejar viagens, investir em educação, empreender, ou simplesmente dormir melhor à noite sabendo que as contas estão em ordem.
Sinais de Equilíbrio Financeiro
Equilíbrio: uma família que decide gastar apenas 70% da renda em despesas fixas, reservar 20% para objetivos de médio prazo (como trocar de carro) e 10% para lazer.
Conexão: um jovem profissional que, ao acompanhar seus gastos no aplicativo bancário, percebe que 30% do salário vai para delivery e decide reduzir para investir em um curso.
- Autoconhecimento: alguém que sabe que não tem disciplina para investir sozinho e opta por fundos de investimento, delegando a gestão a especialistas;
- Disciplina: um casal que poupa todos os meses, durante cinco anos, e consegue dar a entrada em um apartamento sem recorrer a financiamentos longos e caros.
Esses exemplos mostram que a metáfora do cavalo não é apenas poética: é uma tradução concreta da realidade. No fim das contas, a vida financeira é a montaria que cada um escolhe. Podemos estar sobre um cavalo tranquilo, conectado conosco, conduzido com equilíbrio e disciplina.
Ou podemos ser arrastados por um jumento desgovernado, sem rumo nem controle.
A escolha não é apenas de qual animal montar, mas de como montar. O cavalo representa a nossa realidade financeira, e cabe a nós decidir se teremos a coragem de encará-la, a paciência de treiná-la e a sabedoria de mantê-la sob controle.
A cena que vivi e a brincadeira da minha amiga resumem uma grande lição: finanças pessoais não são apenas números, planilhas ou contas bancárias. Elas são reflexo de como conduzimos a vida. E, assim como na montaria, não se trata de velocidade, mas de direção.
Pensem nisso e até a próxima!
Ana Alves
@anima.consult
animaconsultoria@yahoo.com.br
Economista, Consultora, Professora e Palestrante