A invenção da praia e a pandemia

Praia com barracas fechadas, mar ao fundo e entregador de sorvete
Legenda: Compreendo a dificuldade que muitos têm em retirar a praia do seu cotidiano
Foto: Fabiane de Paula

A praia chegou ao século XXI como um território símbolo de saúde, lazer e aglomeração. É uma invenção social, é um fenômeno de massa, como sempre me lembra meu amigo Eustógio Dantas. Alguns adoram a multidão, o contato, a alegria; adoram Jericoacoara. Outros buscam a tranquilidade, o isolamento, a calmaria, amam as vilas de pescadores. Há também aqueles que pulam de praia em praia, seguindo as recomendações dos guias turísticos.

Nos estudos de história cultural, as praias já foram denominadas por Alain Corbin de territórios do vazio. Mas de que vazio ele tratava? No passado, a praia não era espaço para as práticas de lazer e turismo. 

Já no século XVIII, vê-se sinais da mudança no Ocidente. Os pintores passaram a retratar as belezas da paisagem litorânea e os teólogos naturais começaram a reinterpretar as escrituras e a considerar as praias com lindo efeito da criação divina.

Simultaneamente à revolução industrial, e especialmente nos últimos 100 anos, a popularização da praia se acelerou. Invenções técnicas e culturais mudaram os usos predominantes nas zonas a beira-mar, o gosto pelo marítimo se dispersou e balneários foram criados mundo afora.

As caminhadas e os banhos de mar nasceram como práticas curativas.

No século XIX, manuais europeus detalhavam as técnicas e demonstravam os mergulhos forçados nas águas marítimas como tratamento para várias moléstias. Os ares marítimos se tornaram fonte do bem-respirar.

Ao longo do século XX, essas práticas viram-se mundanas e adaptadas às zonas tropicais. Além dos banhos de mar e de sol, muitas outras práticas de lazer foram incorporadas às orlas. Hoje, há dezenas de esportes realizados nas águas e nas areias. Falamos de diversas práticas e brincadeiras. 

Vejam, por exemplo, a importância dos esportes náuticos, do surf, do kitesurf e do vôlei de praia na dinamização dos lugares litorâneos.

Por isso, para a sociedade urbana, as praias são facilmente associadas ao bem-estar e à qualidade de vida.

No caso das grandes cidades litorâneas, a praia é reflexo do modo de vida urbano e é um importante espaço público. Margeadas pelos calçadões, contornadas por caminhos de automóvel, cercadas por arranha-céus; a praia é território do encontro e da aglomeração. 

Dessa forma, em Fortaleza ou em outras cidades litorâneas, grandes eventos acontecem banhados pelas ondas do mar: o réveillon, festivais juninos e grandes celebrações religiosas.

A pandemia da Covid-19 transformou sensivelmente esse cotidiano. As orlas urbanas tornaram-se verdadeira dor de cabeça para os gestores públicos. Calçadões fechados, banhos de mar impedidos, bares, barracas, restaurantes e condomínios de praia fechados a fim de evitar as multidões e os contágios.

Compreendo a dificuldade que muitos têm em retirar a praia do seu cotidiano. Seja na Barra do Ceará, no Meirelles ou no Caça e Pesca, não há outro espaço de lazer mais popular que a praia. Mas é necessário seguir os protocolos, manter os cuidados, romper, momentaneamente, com a tradição da aglomeração.

Esse momento da história representará uma mudança na forma pela qual nos apropriarmos da praia? À vista do que já acontece em outros países, parece-se que será ainda mais atrativa! 

Com a recomendação para evitar aglomerações em lugares fechados, a praia ganhará mais visitantes e novas práticas serão adaptadas à areia ou ao mar. Depois da ampla vacinação, a praia voltará a ser o território da multidão e do lazer.

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.



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