Tristes ruas

Mulher ajeita colchão no chão em frente à loja fechada
Legenda: As desigualdades são históricas, mas jamais devem ser naturalizadas
Foto: Natinho Rodrigues

As ruas podem representar a urbanidade e o pulsar de uma cidade. Lamentavelmente, também permitem enxergar sua face mais triste e miserável.

O ano era 2007, era noite, por volta das 21 horas. Tomei um ônibus na Avenida 13 de maio em direção à Duque de Caxias. No trajeto e já próximo do ponto de desembarque, deparei-me com uma das situações mais tristes da minha experiência urbana. Em situação de rua, um homem e sua companheira discutiam. Estavam acompanhados por duas crianças, seus filhos, imagino. O homem, aparentemente bêbado, falava palavrões, e as crianças choravam.

A mulher, que portava duas sacolas plásticas, reagia e retrucava. Num dado momento, o homem tomou as sacolas e jogou todo seu conteúdo pela rua e calçadas. Eram suas peças de roupa, talvez, tudo o que tinha. O homem foi embora e deixou a senhora e suas crianças chorando e reunindo seus pertences. Tudo foi muito rápido. O ônibus seguiu, mas aquele acontecimento nunca saiu da minha cabeça, sobretudo o choro das crianças.

Estamos em 2021 e basta uma volta rápida por nossas avenidas para colecionar outras tantas tristezas. Há dois meses, parado em um semáforo, vi duas crianças, fantasiadas de palhaço, uma sobre a outra, a fazer malabarismos com bolinhas. Com movimentos rápidos e destreza, tentavam agradar o público e depois coletar as doações antes do sinal verde. Não tão rápido quanto as crianças, pensei onde moram, em seus pais e no futuro de cada uma.

Os casos se multiplicam. Em uma das tardes da semana passada, caminhava até o supermercado. Avistei uma mulher banhando, nos degraus de uma loja, duas criancinhas. Depois, seguiram para a esquina de duas avenidas. Fazia muito calor e a calçada “pegava fogo”. A mulher seguiu em direção aos carros, levou uma das crianças nos braços e a outra deitou sobre um colchão de papelão na calçada.

As desigualdades são históricas, mas jamais devem ser naturalizadas. Triste é a sociedade que condena à miséria essas crianças.

Não há Estatuto da Criança e Adolescente que resista à reprodução contínua da extrema pobreza. Doações e a assistência social de Organizações da Sociedade Civil (OSCs) são importantes enquanto medidas a curto prazo. Entretanto, aqui estamos falando da necessidade de mudanças estruturais e forte presença do Estado.

É absurdo, desumano, tratar todos esses relatos como cenas. Não o são! Longe de nos referirmos às artes teatrais ou fílmicas. Será que ao olhar nesses olhos infantis, não nos enxergamos? Essas crianças carecem imediatamente de políticas públicas multidimensionais.

Fracassada é a cidade que aceita com tamanha parcimônia suas crianças nas ruas e nas esquinas.

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.