Santos, heróis e influenciadores: a dicotomia do coração humano entre sombra e luz

Os influenciadores atuam, muitas vezes, na vitrine de si, tornando-se produtos de um espetáculo digital que alimenta desejos muitas vezes passageiros e distantes do compromisso com a coletividade

Escrito por
Adalberto Barrteo producaodiario@svm.com.br
Legenda: A batalha entre eles é um confronto constante que busca gerar aprendizado ou alimentar a ignorância, regredir ou evoluir em busca de equilíbrio e mais consciência.
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No íntimo de cada ser humano ocorre, muitas vezes de forma silenciosa e despercebida, uma luta invisível entre forças opostas que disputam a direção do nosso caminho: um impulso sombrio, voltado à autodestruição, e uma força luminosa, que sonha e constrói um futuro promissor. Nessa linha tênue de sombra se desenham as grandes dicotomias da experiência humana: “Ódio — Amor”, “Ignorância — Sabedoria”, “Medo — Coragem”, “Depressão — Esperança de Vida”, “Bem — Mau”, “Paraíso — Prisão”. Os sentimentos, como atores em um palco interior, se enfrentam, se tocam, se atraem e se repelem.

A batalha entre eles é um confronto constante que busca gerar aprendizado ou alimentar a ignorância, regredir ou evoluir em busca de equilíbrio e mais consciência. Nessa batalha interior, o ódio mede forças com o amor, a ignorância se transforma em sede de conhecimento, o medo dá lugar à coragem, a depressão se abre para a fé e a esperança. O egoísmo e a arrogância levam ao escárnio de muitos, quando não aos tribunais e à prisão. O interesse pessoal aponta para o desinteresse coletivo e o bem comum. Os espaços nobres, como catedrais, mausoléus e panteões, permitem perpetuar o legado daqueles que neles descansam.  

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Cada uma dessas duplas é a representação viva da tensão que nos atravessa e nos impulsiona, dia após dia, na busca por paz interior. Como sugere o músico, educador, italiano Franco Mussida: “não adianta se iludir, só se pode esperar uma vida em paz se, no fundo do Coração das pessoas, se cultivarem sentimentos de sincera amorosidade”. A verdadeira paz não é imposição, mas brota como uma flor rara do solo fértil de sentimentos a favor da vida, capazes de dissolver o gelo afetivo de uma razão que, muitas vezes, se curva ao egoísmo e aos próprios interesses. A paz é construída pela presença viva de compaixão e perdão, sentimentos de raiz laica antes mesmo de religiosa.

É preciso um trabalho constante e corajoso sobre si para forjar um coração capaz de acolher, amar, compreender e perdoar. Só por esse caminho, a esperança vence a depressão, a coragem supera o medo, a sabedoria suplanta a ignorância, o amor triunfa sobre o ódio e o bem comum sobre o egoísmo doentio. Nessa jornada, cada dicotomia transforma-se de obstáculo em oportunidade: o ódio revela a força do amor, o medo revela a nobreza da coragem, a ignorância abre as portas para a sede de saber, a depressão ensina o valor da esperança.

O bem comum prevalece sobre o individualismo. A compaixão acalma os impulsos de dominação e o SER MAIS assume o comando sobre o TER MAIS. Outro italiano, Santo Ignacio de Loyola, nos lembra que a bondade que emerge do coração compassivo dos outros nos leva ao desejo de imitar aqueles que expressavam a bondade dos valores. No passado, os heróis e santos inspiravam o exercício do desejo de praticarmos a compaixão e o serviço do outro. Ao longo da história, heróis e santos foram celebrados não pelo brilho efêmero da notoriedade, mas pela luz constante de uma vida dedicada ao cuidado e ao bem comum.

Ocupam até hoje os altares e mausoléus: Francisco de Assis, Vicente de Paula, Madre Teresa de Calcutá, Gandhi, Martin Luther King, — são nomes que evocam o amor operante, aquele que consola, serve, inspira e transforma sem alarde, sem plateias, sem busca de glória pessoal. Na contemporaneidade, o arquétipo do santo e do herói coletivo parece ter cedido espaço ao fenômeno dos influenciadores digitais solitários, cuja força reside na capacidade de cativar multidões, moldar tendências, definir padrões de comportamento. Contudo, muitas vezes esses novos “ídolos” têm como moeda a fama, o sucesso pessoal, material e o poder de inspirar o consumo e o culto à imagem.

O impacto, por vezes, é superficial: promove anseios por reconhecimento, validação e pertencimento a um universo onde o “ter” se sobrepõe ao “ser”. Nos últimos anos, o universo dos influenciadores digitais no Brasil cresceu exponencialmente, com milhões de seguidores acompanhando diariamente vidas, opiniões e comportamentos de personalidades que conquistaram espaço através das redes sociais. Antes, multidões seguiam em procissão seus santos admirados, hoje milhares seguem seus admirados pelo Twitter e Facebook. Entretanto, essa visibilidade também trouxe à tona casos emblemáticos em que a fama foi utilizada para práticas criminosas, gerando debates profundos sobre a ética e responsabilidade nas plataformas digitais.

Um dos tipos de escândalo mais recorrentes envolve fraudes financeiras. Enquanto os santos testemunhavam a essência da vida e prometiam a conquista do paraíso, os influencers vivem de aparências e prometem fama e riqueza material. Nestes casos, muitas pessoas perderam dinheiro ao confiarem na credibilidade e no alcance dessas figuras públicas. Além disso, houve casos em que perfis de alto alcance foram utilizados para disseminar links e aplicativos fraudulentos, prejudicando usuários desavisados que confiaram na legitimidade da nada “santa” Fonte. Diversos influenciadores foram notificados por entidades reguladoras brasileiras por omitirem que determinado conteúdo era patrocinado, induzindo seguidores ao erro.

O uso das redes para ostentar uma vida de luxo muitas vezes esconde práticas ilícitas, que acabam sendo desmascaradas por investigações policiais. Os grandes escândalos envolvendo influenciadores brasileiros reforçam o debate sobre a responsabilidade digital. O alcance dessas personalidades é enorme, e suas ações têm impacto direto na vida de milhões de pessoas. Por isso, é fundamental que as plataformas, os seguidores e os próprios criadores de conteúdo promovam uma cultura de ética, transparência e respeito às leis. Cabe a cada pessoa ser criteriosa ao consumir conteúdos e a denunciar práticas que coloquem em risco a segurança, a dignidade e o bem-estar coletivo.

Mulher de cabelos preto, amarrado se posiciona de frente a uma câmera de celular com luz para live
Legenda: Enquanto os santos testemunhavam a essência da vida e prometiam a conquista do paraíso, os influencers vivem de aparências e prometem fama e riqueza material
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A correlação entre essas figuras de santos, heróis e influenciadores digitais revela um deslocamento de valores: se antes a referência era o serviço silencioso, a compaixão e a transcendência do ego em benefício do próximo, hoje a visibilidade, o carisma e a habilidade de “influenciar” são frequentemente os critérios para a escolha de modelos a serem seguidos. Os santos e heróis inspiravam pelo exemplo de vida, pela renúncia de si em nome do bem comum. Os influenciadores atuam, muitas vezes, na vitrine de si, tornando-se produtos de um espetáculo digital que alimenta desejos muitas vezes passageiros e distantes do compromisso com a coletividade.

Entretanto, alguns influenciadores dedicam suas plataformas à promoção do bem, à divulgação de causas sociais, à mobilização para campanhas de solidariedade. Aqui, reencontramos ecos dos santos e heróis do passado: é possível ser voz ativa, inspirar compaixão e despertar consciências para além do brilho artificial dos likes. O desafio contemporâneo é resgatar o melhor de ambos: unir o alcance quase ilimitado do digital à profundidade ética e afetiva da compaixão, da escuta e do serviço. Que os influenciadores do século XXI possam se inspirar nos heróis e santos de outrora, tornando-se referências não somente pela visibilidade, mas pela capacidade de cultivar empatia, promover o bem-estar comum e inspirar vidas voltadas ao cuidado da coletividade e do planeta.

Dentro de cada um de nós, pensamentos positivos e negativos travam um combate interior, expressando sentimentos que influenciam ações, por vezes prejudiciais a si e ao próximo. Inspirando-se na mística jesuítica de Inácio de Loyola, somos convidados a perceber como certos desejos aquecem o coração e nos impulsionam a imitar exemplos de bondade e valores elevados. A questão central é: como superar o lado obscuro — marcado por ódio e divisão — e manter vivo o sentimento de união, amor e partilha? Devemos escolher ser cavalheiros, pautando-nos pela escuta do coração, ou gladiadores do ego? É fundamental dar ouvidos ao coração, permitindo que ele guie nossas ações de forma autêntica. Desejar imitar quem conquista fama e dinheiro nos distancia da verdadeira compaixão.

O despertar dos desejos profundos é o que nos aproxima dos valores eternos. A espiritualidade, nesse contexto, não deve ser fonte de divisão, mas caminho de abertura ao amor. Ela ajuda a encontrar uma vida combativa, mas frutífera, voltada ao bem. O desejo de pertencer a algo maior que nossos próprios problemas e divisões exige uma revisão constante de nossas atitudes, assim como discernimento diante do que vemos e ouvimos — especialmente nas redes sociais, que tendem a nos aprisionar em bolhas de desinformação e ódio. É hora de utilizar o senso crítico diante de discursos religiosos que despertam o pior em nós, promovendo divisões e alimentando ressentimentos.

O ódio é um câncer que nos consome e desumaniza. Precisamos ouvir mais o coração e nos conectar com emoções empáticas, capazes de nos unir e fortalecer os laços de família e comunidade. Aplaudir, elogiar e construir são atitudes que devem prevalecer sobre a hostilidade e o afastamento. Redescobrir a esperança de um futuro mais saudável passa pela reconexão com valores universais como o amor e a compaixão pela dor alheia. O respeito mútuo é essencial: quando nos fechamos em convicções rígidas, bloqueamos o fluxo da vida, o novo e o imprevisto. Nossa existência só faz sentido em relação ao outro, não para dominá-lo ou convencê-lo, mas para partilhar descobertas, abraçar diferenças e celebrar juntos a vida. Reconhecer e acolher essa luta invisível é o primeiro passo para um equilíbrio real e duradouro.

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.