Muito além dos muros, Ceará e Fortaleza precisam ir ao interior se quiserem a hegemonia da torcida

É preciso vislumbrar um vasto campo para além dos muros das sedes de Pici ou Porangabuçu

Clássico-Rei
A festa na Arena Castelão é algo distante para a torcida interiorana Foto: Raisa Martins

É momento de reflexão. A pesquisa inédita divulgada pelo Sistema Verdes Mares mostra uma torcida do Flamengo, já maior do Brasil, é dominante também dentro do Estado do Ceará. Antes de qualquer repúdio, o olhar é para o passado e também presente até desvendarmos os números.

A Capital esconde muitas das reverberações que a paixão ao futebol ostenta. Aqui temos as sedes de Ceará, Fortaleza e Ferroviário, lojas oficiais, os principais estádios e, consequentemente, partidas oficiais. É normal, faz parte do fluxo das grandes metrópoles. A questão é: o que tem o torcedor do interior?

Quando criança, sempre me perguntava o que realmente diferenciava o Corinthians do Ceará, por exemplo. Isso porque tive a infância construída entre Irauçuba e Fortaleza e percebia que os clubes movimentavam públicos distintos. Claro, se alguém tivesse a oportunidade de ir “na cidade grande” voltava para casa com um time a mais no coração.

Depois de um tempo refleti que, em si, ambos ostentavam uma característica em particular: distância da realidade ou contexto social do interiorano. As pessoas de lá nunca assistiram a uma partida dos times ou compraram camisas ou viram os atletas, quiçá o escudo em qualquer ambiente senão a TV.

E como ela teve influência nessa decisão particular. Com meus pais, em Fortaleza, acompanhava o noticiário local. Junto dos familiares, a ausência de internet e a parabólica me traziam programações do Sul e Sudeste, quando não uma competição internacional - quase sempre europeia.

Assim fomos formados. Desnutridos de afetos dos gigantes da Capital, abraçados pela mídia nacional, por vezes xenófoba, que excluía o Norte-Nordeste, incluindo feitos ou títulos. Meu pai cresceu Flamengo até vir tentar a sorte em Fortaleza, aos 21 anos. Hoje, aos 57, carrega duas camisas no peito, muito por conta do encantamento com as festas e os estádios lotados - isso ele que conta.

No fim, ninguém consegue explicar o elo entre clube e torcedor, faz parte da magia que circunda o principal esporte do mundo - inclusive dos que tem acesso aos times locais e se tornam adeptos de outros. Ter um carioca liderando um ranking estadual quando as duas principais frentes - Ceará e Fortaleza - estão na Série A é alarmante. 

Não significa, no entanto, que as críticas sejam aos torcedores. É preciso vislumbrar um vasto campo para além dos muros das sedes de Pici ou Porangabuçu. Ávidos por futebol existem aos montes, políticas de incentivo precisam florescer se quiseram diminuir essa disparidade.

Em tempo: a pesquisa mostra que 32% do Estado não torce para ninguém. O desafio é ainda maior aos que tentarem desbravar esse campo, que exige a expansão da marca em outros cenários para além do futebolístico.

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