Criadores de jogos vivem sem renda própria e sem auxílio trabalhista no CE, revela estudo

Publicado em junho, o Censo Fortaleza Game Dev busca levar visibilidade às condições de trabalho de profissionais cearenses da área de jogos digitais.

Escrito por Paulo Roberto Maciel paulo.maciel@svm.com.br
02 de Outubro de 2026 - 20:30
capa da noticia
Legenda: Dos 101 entrevistados, apenas 4% possuem contrato fixo e estável no modelo CLT.
Foto: Frame Stock Footage / Shutterstock.

Um estudo recente realizado com 101 desenvolvedores de jogos do Ceará constatou que 56% deles não possuem nenhuma receita vinda exclusivamente da área.

A partir de informações coletadas por meio de um formulário com 74 questões, o Censo Fortaleza Game Dev revelou que 35% dos participantes atuam em mais de uma área para complementar a renda.

Apenas 10% das pessoas disseram poder se dedicar totalmente ao mercado de videogames. Dessas, apenas 4% possuem vínculo formal de trabalho no regime CLT.

Já 20% dos respondentes afirmaram que produzem jogos apenas por passatempo ou atuam como Pessoa Jurídica (PJ), similar a freelancers, sem contrato fixo com empresas sediadas no Ceará ou fora dele.

Elaborada desde 2024 em parceria com o Centro Cultural Bom Jardim (CCBJ) e publicada em junho deste ano, a pesquisa se apresenta como uma tentativa pioneira de atrair políticas públicas e investimentos alinhados às reais necessidades dos desenvolvedores cearenses de jogos.

Para Matheus Rodrigues, co-autor do estudo e professor do curso de Sistemas e Mídias Digitais da Universidade Federal do Ceará (UFC), os dados apresentados evidenciam uma série de dificuldades para quem deseja ingressar na área no Ceará.

Ao Diário do Nordeste, o pesquisador destacou que apenas 25% dos profissionais que responderam ao censo possuem algum benefício empregatício. O restante, ou não recebe ou não trabalha com jogos no momento.

"Os dados mostram que as relações de trabalho no mercado local de videogames estão muito frágeis. É preciso profisisonalizá-las, criar vínculos empregatícios reais para que os desenvolvedores tenham uma qualidade de vida melhor e possam ter liberdade para criar quando elas estão fora do trabalho".

A esmagadora maioria dos respondendes não recebebe nenhum benefício trabalhista com o trabalho em vídeogames.
Legenda: A esmagadora maioria dos respondendes não recebebe nenhum benefício trabalhista com o trabalho em vídeogames.
Foto: Reprodução / Censo Fortaleza Game Dev 2024.

Matheus ainda destacou que os interessados enfrentam desafios financeiros e estruturais profundos e que, para poderem seguir no ramo, precisam submeter-se a uma de duas dinâmicas difíceis.

"Ou a pessoa possui um apoio familiar para sustentá-la durante essa atividade, ou ela precisa de outro trabalho e passa a enxergar os jogos como algo secundário. E essas duas são dinâmicas que criam problemas estruturais sérios", afirmou.

Recorte de gênero e raça

Conforme Matheus, o censo também evidencia uma realidade social distoante a presente no Ceará. Segundo o IBGE, a população cearense é composta majoritariamente por mulheres e pessoas pardas. Entretanto, na pesquisa, a demografia de profissionais ainda se concentra na figura de homens brancos.

A principal referência para a categorização dos dados sobre gênero e sexualidade foi o próprio censo brasileiro, realizado pelo IBGE.
Legenda: A principal referência para a categorização dos dados sobre gênero e sexualidade foi o próprio censo brasileiro, realizado pelo IBGE.
Foto: Reprodução / Censo Fortaleza Game Dev 2024

Apesar disso, Matheus reconhece a existência de uma participação relativamente diversa de pessoas de cores e gêneros diferentes no mercado de jogos de Fortaleza. Ele cita como exemplo os grupos de discussão da Associação Internacional de Desenvolvedores de Jogos (IDGA).

"Há um movimento para mais diversidade nos estúdios e empresas, mas considero ainda essa participação como pequena demais para não passar despercebida. Por exemplo, quase não teve respostas de pessoas com deficiência. O que é um problema, pois onde está essa acessibilidade?", questionou.

O professor também citou um levantamento do Serviço de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae), chamado Mapeamento de Profissionais de Jogos no Ceará, que indica como a maioria das empresas não tinham políticas de acessibilidade e inclusão.

"A gente não pode afirmar nada categoricamente, mas a união desses dois dados gera uma hipótese muito forte de que a gente ainda precisa construir espaços acessíveis dentro das empresas", propõe.

Não há presença de indígenas ou pessoas declaradas amarelas entre os entrevistados da pesquisa.
Legenda: Não há presença de indígenas ou pessoas declaradas amarelas entre os entrevistados da pesquisa.
Foto: Reprodução / Censo Fortaleza Game Devs 2024.

Mão de obra especializada, oportunidades precárias

Conforme o censo, a maioria dos entrevistadios que consegue monetizar o próprio trabalho está em um espaço intermediário de renda, entre um a três salários mínimos (de R$ 1.640 até R$ 4.920).

Apenas oito pessoas afirmaram receber entre três e seis salários exclusivamente com o desenvolvimento de jogos. Ou seja, as pessoas tendem a sustentar sua atividade na área de jogos com outras fontes de renda.

Para Matheus, o cenário é preocupante, mas superior aos demais setores. Baseado no Censo Brasileiro de 2022 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), ele salientou que o Ceará tem a quinta pior média salarial da lista, com R$2.798,50.

Os dados revelam um público majoritariamente composto por pessoas com ensino superior, seja completo ou em andamento, representando aproximadamente três quartos da amostra.
Legenda: Os dados revelam um público majoritariamente composto por pessoas com ensino superior, seja completo ou em andamento, representando aproximadamente três quartos da amostra.
Foto: Reprodução / Censo Fortaleza Game Dev 2024.

Ainda assim, conciliar o desenvolvimento de jogos com manter outro emprego para pagar as contas afeta diretamente o aspecto criativo da profissão, levando os desenvolvedores a apostarem em fórmulas de rápidas e de sucesso.

"Essas pessoas que vão trabalhar por muitas horas por dia não tem tempo para viver, não tem tempo para criar, e isso acaba os forçando a se adequar ao que está dando certo no mercado, porque está todo mundo com pressa para comer", afirmou.

O pesquisador também chamou atenção para o fato do estudo ter demonstrado que o Ceará possui, sim, mão de obra qualificada. "O mercado externo, inclusive, enxerga a região como um polo de profissionais 'hiper qualificados'", completou.

Isso evidencia ainda mais, segundo ele, a disparidade entre a qualidade dos profissionais e a pouca oportunidade existente no mercado cearense.

Com esses dados, conseguimos ver como a política pública mais urgente não é nem a formação de pessoas que saibam programar, ou saibam fazer ilustração, porque isso tem. O problema talvez seja a produção de políticas que permitam a sustentabilidade dos negócios, que absorvam essa mão de obra que não está conseguindo ser absorvida".
Matheus Rodrigo Serafim Rodrigues
Professor da UFC e pesquisador de jogos

Impacto na saúde

O relatório encerra com seis entrevistas com desenvolvedores de Fortaleza. O intuito delas, segundo explicou Matheus, foi ouvir de maneira mais direta os anseios, os pesares e as expectativas de quem vive o cotidiano do mercado de jogos no Ceará.

À reportagem, o professor relembrou o relato de Josibar Barreto, co-fundador do estúdio Lapada Games, de "Zezim na Corrida Junina", e aluno do CCBJ.

Ao ser perguntado sobre os principais desafios de quem desenvolve jogos, ele diz, conforme consta na transcrição presente no documento: "Volto naquele papo de poder monetário. Dinheiro. Ter que escolher o que amo ou escolher ter o que comer".

Josimar ainda complementa que adquiriu pressão alta por conciliar dois empregos e afirma que as dificuldades são ainda maiores para quem vive na periferia.

"Não temos uma rede de segurança, não temos base financeira. Você acaba precisando se dividir entre sobreviver e seguir sua paixão, e isso limita muito o acesso a essas oportunidades. Esse processo acaba elitizando a área das artes", opina.

O relato de Josimar vai ao encontro dos dados compilados pelo censo sobre a relação das problemáticas apresentadas e a saúde dos profissionais.

De todos os respondentes, 23 afirmaram possuir diagnóstico de Pessoa Neurodivergente. Cinco responderam ter diagnóstico de Deficiência Física e enquanto outros cinco utilizam adaptação ou dispositivos de auxílio.

Ao analisar os dados, Matheus não pôde chegar a conclusão de que as condições citadas surgiram à partir do trabalho com videogames. Entretanto, ele entende os resultados como um sinal de alerta.

"Quem dedica muito tempo ao trabalho e recebe pouco retorno financeiro acaba caindo em armadilhas mentais difíceis de sair. Mas esperamos que o censo coloque luz sobre esse assunto e ajude a gerar melhorias para a nossa comunidade. Todos ganham com isso", reforçou.

Outros estudos

Com a divulgação do Censo Fortaleza Game Dev, o pesquisador pretende dar continuidade e se aprofundar no estudo de jogos no Ceará. Mais especificamente, algo que ele chama de "Game Design Marginal".

O termo, inspirado na literatura e no cinema marginal, implica em uma produção que se posiciona de maneira disruptiva em relação às tendências do grande mercado, valorizando a experimentação, a expressão e a fruição dos jogos, se encontrando na intersecção entre o design e a arte.

O coletivo "Da Cidade à Tela", responsável pelo censo, também planeja trabalhar em uma pesquisa focada em fomentar a circulação local de jogos produzidos no Estado.

"Nossa sorte é que nosso mercado ainda é muito volátil. As coisas ainda estão acontecendo. Se a gente conseguir criar um modelo autossustentável e não importar as dinâmicas de trabalho tão problemáticas lá de fora, os desenvolvedores cearenses vão ter muito a ganhar com isso", finalizou.