Disputa pela região começou há mais de 350 anos
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Redação
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Fortaleza. As disputas territoriais entre Ceará e Piauí remontam ao século XVII, mais precisamente ao ano de 1656, quando a capitania secundária do Ceará foi separada da capitania-geral do Maranhão e Grão-Pará, que incluía a área hoje do Piauí, e anexada à capitania-geral de Pernambuco. A explicação é do historiador e professor da Universidade do Vale do Acaraú (UVA) e de cursinhos pré-universitários, Airton de Farias, autor de vários livros sobre História do Ceará.
Enquanto o Ceará tinha importância política menor dentro do projeto colonial português, o Maranhão passou a reivindicar a posse do aldeamento indígena Nossa Senhora da Ibiapaba, conhecido como Missão da Ibiapaba, onde hoje está o município de Viçosa do Ceará. “Era um dos maiores aldeamentos da América, com grande presença de índios, fundamental para a obtenção de mão-de-obra escrava. Os escravos negros eram muito caros, e o Piauí não tinha como comprar. Vem daí, a disputa pela região. Não é apenas por terras”, explica o historiador.
Em 1799, o Ceará tornou-se independente, mas as disputas pela região da Ibiapaba continuaram. A separação do Piauí em relação ao Maranhão, em 1811, não atenuou a disputa. “Várias vezes, se pretendeu anexar a Ibiapaba, ora ao Ceará, ora ao Piauí”, narra.
O caso da Parnaíba
Um dos marcos da disputa entre Ceará e Piauí foi o acordo proposto em 1880. Conforme Airton de Farias, os piauienses precisavam de um pedaço de mar para exportar algodão. Como um gesto de “boa vontade” com os vizinhos, o Ceará cedeu a localidade de Amarração, que fazia parte do município de Granja. Em troca, recebeu do Piauí a região de Príncipe Imperial. Hoje, essas áreas correspondem aos municípios de Parnaíba e Crateús, respectivamente. Mas o acordo político não foi bem costurado e acabou estendendo as indefinições acerca da divisa entre os Estados, criando a área de litígio que persiste até hoje.
Na opinião de Airton de Farias, do ponto de vista histórico, o problema dificulta a existência dos habitantes dessas áreas e a criação de um sentimento regional deles com a a terra onde vivem, visto que há diferenças culturais entre o Ceará e o Piauí. “Você é ligado culturalmente a qual Estado? Como o Estado vai fazer políticas públicas para essas pessoas? ”, questiona. (IJ)
FIQUE POR DENTRO
Sertanejo dá origem à denominação Piocerá
Uma das principais provas de regularidade da América Latina, o rally Piocerá, cuja edição de 2009 foi encerrada no último dia 31, tem o nome originário da área de litígio do Ceará com o Piauí. No primeiro momento, a competição era para ser chamada de Enduro da Integração, na idéia de unir os pilotos dos dois Estados pioneiros na prática de enduro de regularidade na região Norte e Nordeste do País. Mas, em 1987, os organizadores foram percorrer os dois Estados para planejar o percurso da prova. Em determinada região, perguntaram para um sertanejo onde estavam. Ele respondeu que ali era o Cerapió-Piocerá, pois ali ninguém sabia onde estava nem a qual Estado pertencia. Foi então que a prova passou a ser chamada de Cerapió, quando sai do Ceará para o Piauí, e Piocerá, quando o roteiro é inverso.
Enquanto o Ceará tinha importância política menor dentro do projeto colonial português, o Maranhão passou a reivindicar a posse do aldeamento indígena Nossa Senhora da Ibiapaba, conhecido como Missão da Ibiapaba, onde hoje está o município de Viçosa do Ceará. “Era um dos maiores aldeamentos da América, com grande presença de índios, fundamental para a obtenção de mão-de-obra escrava. Os escravos negros eram muito caros, e o Piauí não tinha como comprar. Vem daí, a disputa pela região. Não é apenas por terras”, explica o historiador.
Em 1799, o Ceará tornou-se independente, mas as disputas pela região da Ibiapaba continuaram. A separação do Piauí em relação ao Maranhão, em 1811, não atenuou a disputa. “Várias vezes, se pretendeu anexar a Ibiapaba, ora ao Ceará, ora ao Piauí”, narra.
O caso da Parnaíba
Um dos marcos da disputa entre Ceará e Piauí foi o acordo proposto em 1880. Conforme Airton de Farias, os piauienses precisavam de um pedaço de mar para exportar algodão. Como um gesto de “boa vontade” com os vizinhos, o Ceará cedeu a localidade de Amarração, que fazia parte do município de Granja. Em troca, recebeu do Piauí a região de Príncipe Imperial. Hoje, essas áreas correspondem aos municípios de Parnaíba e Crateús, respectivamente. Mas o acordo político não foi bem costurado e acabou estendendo as indefinições acerca da divisa entre os Estados, criando a área de litígio que persiste até hoje.
Na opinião de Airton de Farias, do ponto de vista histórico, o problema dificulta a existência dos habitantes dessas áreas e a criação de um sentimento regional deles com a a terra onde vivem, visto que há diferenças culturais entre o Ceará e o Piauí. “Você é ligado culturalmente a qual Estado? Como o Estado vai fazer políticas públicas para essas pessoas? ”, questiona. (IJ)
FIQUE POR DENTRO
Sertanejo dá origem à denominação Piocerá
Uma das principais provas de regularidade da América Latina, o rally Piocerá, cuja edição de 2009 foi encerrada no último dia 31, tem o nome originário da área de litígio do Ceará com o Piauí. No primeiro momento, a competição era para ser chamada de Enduro da Integração, na idéia de unir os pilotos dos dois Estados pioneiros na prática de enduro de regularidade na região Norte e Nordeste do País. Mas, em 1987, os organizadores foram percorrer os dois Estados para planejar o percurso da prova. Em determinada região, perguntaram para um sertanejo onde estavam. Ele respondeu que ali era o Cerapió-Piocerá, pois ali ninguém sabia onde estava nem a qual Estado pertencia. Foi então que a prova passou a ser chamada de Cerapió, quando sai do Ceará para o Piauí, e Piocerá, quando o roteiro é inverso.