Humor sob o Sol

Da famosa "Vaia ao Sol", em 1942, até os comediantes da atualidade, humor cearense é espontâneo e inconfundível.

zebrinha

Dois dias de chuva, e o céu nublado anunciando que poderia vir mais água. Até que o Sol resolve aparecer, majestoso como sempre. Gente feliz por ver o céu se abrindo? Que nada! Dezenas de pessoas se reúnem e mandam uma tremenda vaia para o Astro-Rei. A famosa "Vaia ao Sol", ocorrida em Fortaleza, em plena  Praça do Ferreira, no dia 30 de janeiro de 1942, é o que melhor resume a gaiatice e o legítimo humor cearense. E essa é uma opinião de especialista: Jader Soares, o Zebrinha (foto acima), que além de humorista é um grande pesquisador do assunto. "A turma reunir-se para vaiar o Sol é uma coisa inusitada. Ainda mais sendo na Praça do Ferreira, que era o centro da molecagem do Ceará. No mundo inteiro, uma coisa dessa só poderia acontecer ali. Não tem nada mais inusitado do que isso", avalia Zebrinha.

Identificado com o humor praticamente desde que saiu do berço, Jader Soares reconhece que o clima cearense favorece o bom humor de nossa gente e, por  consequência, o surgimento de tantos artistas que fazem o povo rir. "Nos lugares onde o clima é mais frio, é normal que as pessoas se retraiam mais, sejam mais  recolhidas. O cearense é naturalmente hospitaleiro, dá atenção ao visitante, tem esse calor humano", observa o humorista. "Mas acredito que acima do clima, o que pesa mais é que nós temos essa molecagem cearense na veia. Tanto que é isso que o turista quer ver, quando vem ao Ceará: ele quer conhecer as praias, mas também o nosso humor", analisa. "Vir ao Ceará e não ver um show de humor é como ir a Roma e não ver o Papa ou não comer pizza", brinca.

Gaiatice
Criado em uma família de 16 irmãos, Jader descobriu logo cedo o talento para o humor. "Em casa, todo mundo era metido a artista. Alguns dos meus irmãos  faziam teatro, outros escreviam, e eu, por ser um dos mais novos, estava nesse movimento: recitava poesia, fazia apresentações em público ou na escola. Uma coisa levou à outra. Na juventude, fiz minha primeira apresentação em Salvador, onde eu trabalhava, no Teatro Vila Velha. Aí percebi que deveria voltar para o Ceará, porque os maiores humoristas do Brasil na época eram daqui, o Chico Anysio e o Renato Aragão", relata.

O ano era 1984, e ainda não existia o movimento de humoristas cearenses como o de hoje. "Paulo Diógenes, Ciro Santos, Tom Cavalcante e eu: praticamente  éramos nós que fazíamos humor. Depois, foram surgindo outros talentos", conta Zebrinha.

Jader Soares decidiu se aprofundar em sua paixão. Formou-se em História e tornou-se pesquisador do humor cearense. Escreveu livros, desenvolveu teses e criou o Teatro Chico Anysio, em 1991, no bairro Benfica. Hoje, o teatro está dentro do Museu do Humor Cearense, que ele também administra. Graças à sua atuação, aproximou-se de nomes de peso do humor, como Chico Anysio e Tom Cavalcante. "O Chico era meu amigo, tanto que seus familiares cederam diversas peças raras dele para compor nosso museu. O Tom também colabora, já cedeu muito material para o nosso acervo", descreve.

Uma das teses do pesquisador é que o poeta e jornalista Francisco de Paula Ney (1858 - 1897), o Paula Ney, foi o primeiro humorista cearense, "apesar de nunca ter escrito nenhuma peça de humor", ressalta. "Ele fez carreira no Rio de Janeiro e tinha tiradas sensacionais que as pessoas anotavam e divulgavam. Estudou medicina, mas morria de medo de sangue; trabalhava como jornalista, mas detestava escrever. O negócio dele era 'frescar' sobre tudo, principalmente com as tiradas do cotidiano", conta Jader. "Ele dizia: 'eu participei das reuniões para criar a Academia Brasileira de Letras, mas não me tornei um dos imortais; aliás, eu já sou imortal, porque não tenho onde cair morto", descreve. "Certa vez, o Parlamento se reuniu com o imperador Dom Pedro II e não queriam deixar o Paula Ney entrar para fazer a reportagem; mas ele deu um jeito e ficou debaixo da mesa, ouvindo tudo. É ou não uma autêntica molecagem cearense?", graceja Zebrinha.

Você sabia?
Jader Soares foi o idealizador da lei estadual (lei 13.317, de 2/3/2003) que criou o Dia do Humorista, comemorado no dia 12 de abril, "aniversário do Chico Anysio", ressalta. Depois de ser estabelecida no Ceará, a data também foi adotada em Fortaleza e em todo o Brasil.