Vizinho RN dá recado a Fortaleza sobre festivais de música

No último fim de semana dei um pulo em Natal para ir ao Festival Mada - Música Alimento da Alma. Um evento que resiste há 21 anos e que em 2019, com o desmonte da cultura, soube que aconteceu aos 45 do segundo tempo na tentativa de viabilizar a estrutura. Mas queria falar do que vi nos dois palcos montados ali na Arena Dunas nos últimos dias 18 e 19 de outubro. 

Luedji Luna
Luedji Luna Gabriela Dourado

O line-up foi formado por nomes em ascensão e em destaque da música alternativa brasileira, com o reforço de mainstream do grupo Natiruts. Além deste, MC Tha, Junior Groovador, Flora Matos, Baco Exu do Blues, Baiana System, Luedji Luna e Djonga foram alguns dos nomes que deram seu recado em terras potiguara. 

Se algum deles não lhe é familiar, sugiro um Google para ver e ouvir cada um. Fez? Agora me diz, o que há semelhante entre eles?

Estamos falando de line-up formado essencialmente por artistas negros. Mais do que isso, por artistas que cantam a negritude e exaltam nas letras referências à religiões de matriz africana.

Não sei se foi uma preocupação inicial do festival e, apesar de não acreditar em coincidências, acho que o desenho desse time aconteceu de maneira orgânica diante dos nomes que vem circulando por grandes e pequenos palcos do Brasil.

Do 'Banho de Folhas' de Luedji (que no festival pude conhecer a história da letra que se refere à busca por um pai de santo em Salvador) à 'Rito de Passá' de MC Tha, o público entoou junto músicas de resistência e contracultura.

Dançaram, pularam e cantaram com artistas que vem abraçando a criação cultural de um País que, mais do nunca, tem exposto sua face racista e fascista. 

Baco Exu do Blues
Baco Exu do Blues Gabriela Dourado

Baco gritou aos quatro ventos que "não foi pedindo licença" que ele chegou até ali. Baiana questionou se por ali também estavam sem conseguir respirar por conta das construções nas praias do Nordeste. Teto Preto bradou que não haveria censura. E Djonga foi direto, no encerramento do festival: fogo nos racistas.

Nada de "sai do chão": "parem de nos matar" foi o grito mais dito do palco nesses dois dias. 

Em um momento que os festivais de música de Fortaleza vem sendo desmontados, a resposta do público ao Mada aqui vizinho deu um alento de que a cultura segue sendo um ponto crucial de união social, principalmente em formatos que reúnem discursos que conversam entre si.

Na mala de volta, o desejo de que a capital cearense possa novamente oferecer às pessoas festivais como o Maloca e o Ponto.Ce, que tanto guardo na minha memória de momentos que me fizeram crescer, refletir e, obviamente, me divertir.

Há urgência em manter os espaços para a música e outros movimentos culturais vivos.