Editorial: PAJEÚ RESGATADO

Em regra, as cidades surgiram sempre em torno de fontes acessíveis de água potável. Antes que a tecnologia tornasse possível transportar grandes volumes de água por meio de canais e tubulações, para atender às necessidades de grandes contingentes humanos, era indispensável a existência de um rio capaz de fertilizar terra e dar de beber a pessoas e animais de criação. 

A história de Fortaleza segue esse padrão. Atravessa sua história o Riacho Pajeú. Hoje, o curso d’água sobrevive quase invisível em sua travessia da cidade. Percorre canais subterrâneos e, onde desponta na superfície, é castigado pelo lixo e pelas redes clandestinas de esgoto. Desta forma pouco nobre, ele passa por boa parte do Centro e de outras áreas históricas da cidade. Destino impensável para aquele corpo aquoso inscrito no primeiro documento cartográfico de Capital. 

No mapa de 1726, encomendado por Manuel Francês, capitão-mor da Capitania do Ceará Grande, o Pajeú é visto correndo ao lado do Forte Schoonenborch, construção holandesa erguida quase um século antes e que, mais tarde (1812) seria rebatizada como Fortaleza de Nossa Senhora da Assunção. Sem aquela fonte d’água seria impossível a presença, por longos períodos, de centenas de homens que, sem saber, iniciavam o povoamento do que viria a ser uma vila e, então, uma cidade. 

A vocação civilizatória do Pajeú, contudo, é anterior à chegada dos europeus ao território que hoje corresponde ao de Fortaleza. Séculos antes, no que se configura a pré-história desta parte do continente americano, povos nativos já haviam descoberto o curso d’água e se fixado nas proximidades de seu leito. 

Projeto anunciado pela Prefeitura Municipal de Fortaleza objetiva dar novo fôlego ao Riacho Pajeú. A iniciativa é oportuna, dado os problemas causados por precipitações sobre um leito repleto de lixo. É, ainda, como se vê, uma ação que valoriza duas dimensões da cidade, inadiáveis - a histórica, como se viu até agora, e a ambiental. 
A licitação, aberta por meio da Secretaria Municipal de Infraestrutura (Seinf), dispõe de R$ 41,7 milhões em recursos. 

Na lista de benfeitorias do projeto, estão a resolução de problemas de obstrução por detritos, lixo, sedimentos, assoreamento e interferências na drenagem com os sistemas de rede de água e esgoto. O saneamento do riacho deve reduzir episódios de alagamentos, reincidentes em uma série de pontos da cidade, nos períodos chuvosos. A previsão é de que as obras sejam iniciadas na primeira metade de 2020. 

Verdade que o Riacho Pajeú parece ter chegado a seu limite e uma intervenção para corrigir alguns de seus males era imperativa, mesmo que nos últimos seis anos, pelo menos, 10 ações paliativas tenham sido operadas, no sentido de amenizar as complicações em seu leito. A estimativa do Município é de que 80% da drenagem do curso d’água estejam obstruídos por lixo, esgotos clandestinos e resíduos sólidos, como restos de obras. 

O Pajeú foi batizado com uma palavra tupi. O significado é bom presságio: rio curandeiro. Cuidar dessa parte da geografia da cidade, de histórico longo e rico, é fazer jus a seu nome e, nele inspirado, soprar ventos mais saudáveis para a metrópole.


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