Editorial: A lição da cearensidade

O cearense é um povo particularmente afeito aos desafios e adversidades, mesmo os mais complexos, com os quais se defronta. Há desde os mais antigos problemas, inscritos na geografia local, com seus inevitáveis períodos de severa estiagem; aos típicos da contemporaneidade que impõem a tarefa de serem decifrados, caso das novas formas de violência urbana e de configurações do crime organizado e da economia, como todas, sensível às variações dos mercados no interdependente mundo globalizado. 

Característica comum àqueles que aqui nasceram e/ou se criaram, reconhecida para além das divisas do Estado, é a disposição para o trabalho. Aliada à igualmente propagada criatividade, os habilita a bem se adaptarem nos mais diversos cenários – geográficos, culturais, econômicos e sociais. Encontrado em todos os lugares, até nos mais distantes do mundo, o cearense é conhecido por sua tenacidade, sua capacidade de superar dificuldades, se destacar e empreender.

Cearensidade é a palavra evocada para nomear o que é próprio do Ceará e de seu povo. É ela que batiza também lema do mês temático do Sistema Verdes Mares e norteia série de reportagens, no Diário do Nordeste e em outras plataformas. O conceito não é unívoco, mas montado à maneira de um mosaico, acumulando perspectivas, manifestações e modos de ser. 

Não faltaram intelectuais que se dedicaram a interpretar o caleidoscópico Ceará. José de Alencar, escritor maior que emprestou seu sobrenome para adjetivar o que é natural do Estado, concebeu o mito literário Iracema para dar conta de explicar o povo marcado pela diversidade cultural, pelo desejo de partir e por certa melancolia diante das adversidades presentes em terras áridas.

A força do cearense e sua singularidade também foram celebradas, não faltando aqueles que enxergaram o que o Estado tem de exemplar. 

Nenhum brasileiro é mais cosmopolita, garantiu Gilberto Freyre, na famosa conferência proferida no centenário Theatro José de Alencar, sobre as características do Estado e de seus nativos. O sociólogo, autor de clássicas interpretações da formação brasileira, via como próprio do caráter cearense tendências que, quando combinadas, seriam psicológica e culturalmente criadoras e fecundas: provincianismo e universalismo, regionalismo e cosmopolitismo, continentalismo e oceanismo. Esta também seria a lição do Ceará ao Brasil.

A história do cearense, de acordo com Freyre, se confundiria com o processo de “autocolonização do Brasil”, devendo ser traçada sob o critério transregional. Tais características teriam, em suas origens, a combinação de traços socioculturais dos povos que ajudaram a formar a população do Ceará – em especial, portugueses, ameríndios, negros e ciganos, segundo descrito por Parsifal Barroso, intelectual e político da terra que, inspirado em Freyre, concebeu o clássico “O cearense”.

Conhecer a identidade de um povo, revisar sua trajetória histórica e distinguir as raízes que ajudaram a definir o presente são processos importantes para qualquer sociedade. Fazem-se essenciais em momentos críticos, como o que atravessa o País, e que exigem segurança de si e consciência clara dos próprios potenciais e competências. 


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