Pobreza, populismo e morte na América Latina

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A América Latina desponta como região mais desigual do mundo. O modelo de desenvolvimento adotado guarda relação com a escravidão moderna, com a formação do capitalismo periférico na economia mundial, servindo de pilar do projeto de colonialidade. Prevalece como problema o racismo e a naturalização das desigualdades raciais junto aos 134 milhões de afrodescendentes, ou seja, 21% da população total.

Os afrodescendentes latino americanos lideram os índices de desvantagens que reduzem as possibilidades de inclusão, sobrevivem em territórios estigmatizados, na extrema pobreza e com acesso desigual à educação, saúde, trabalho, representação política, acesso aos direitos.

Na primeira década desse século evidenciou-se a redução da desigualdade, o avanço no marco legal de combate ao racismo e promoção da igualdade racial. Tais ganhos foram resultados tanto do empenho de governos nacionais que priorizaram políticas redistributivas e inclusivas no âmbito do trabalho e proteção social, quanto do processo histórico de denúncia do racismo construídos por diversos atores e organizações dos movimentos antirracistas.

Porém, a partir de 2015 mudança no plano político ocorreram, provocando um recuo da democracia com prevalência de práticas autoritárias e crescimento do populismo. Em cada país esse fenômeno toma contornos diferenciados de atualização do conservadorismo e subserviência das elites colônias latino americanas que negam a pluralidade de seu povo originário e afrodescendente. Destacando-se líderes oportunistas que se aproveitam da frustação popular com os processos de exclusão, para consolidarem governos populistas, valorizando pautas reacionárias com o negacionismo, flexibilizando legislação sobre armas, ascendendo ao poder militares da ativa e da reserva na ocupação de cargos de civis e os graves ataques aos direitos humanos.

Preocupa muito quando a insatisfação da população latina americana diante do aumento da pobreza e sem desenvolvimento sustentável leva ao apelo às narrativas autoritárias, criminalizando a política e elegendo governos que rejeitam a participação e a deliberação pública.

Acresce o contexto da pandemia da Covid-19 provocando alta letalidade, escancarando desvantagens históricas que fazem dos afrodescendentes os mais afetados no plano sanitário, econômico e político. Até meados do mês de maio do corrente ano a região contava com mais de 31,5 milhões de casos de Covid-19 confirmados e notificado à OMS e com mais de 1 milhão de mortes.

É válido assinalar, que os Estados na América Latina não têm sido capazes de reconhecer a contribuição econômica, social e cultural dos afrodescendentes, daquilo que fazem para o desenvolvimento de seus territórios. Para alterar esse quadro, vale desmantelar a cultura do privilégio criada pelo racismo, consolidar sistema de proteção social e garantir participação política a esse grupo étnico.

*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião da autora.