Doutor Freud, o analista de Bagé e as tetas federais

Ciro Nogueira
Legenda: O senador Ciro Nogueira (PP-PI) está de mudança, de mala e cuia, para a Casa Civil; no seu lugar, fica a mamãe Eliane Nogueira
Foto: Agência Senado

Complexo de Édipo é coisa séria. Na política, então, vai além do amor exagerado do menino pela sua mãe, extrapola a adolescência, atinge a fase adulta, chega às urnas eleitorais e, pasme, pode render bons lucros para os negócios da família. Essa versão brasileira, porém, o doutor Freud não previu nos seus estudos e diagnósticos mais avançados. Para não cometer uma injustiça histórica, somente o analista de Bagé, personagem de Luis Fernando Veríssimo, insinuou a respeito de tal variante edipiana.

A mais nova mexida anunciada na equipe do governo Bolsonaro pelo menos serviu para mostrar, de forma pedagógica, o fenômeno. O senador Ciro Nogueira (PP-PI) está de mudança, de mala e cuia, para a Casa Civil; no seu lugar, fica a mamãe Eliane Nogueira. Muito fofo, doutor Freud, unir maternidade e suplência no poder de Brasília. Tudo em casa. Ganha toda a árvore genealógica com uma mexida só do xadrez político.

Assim sendo, o governo amamenta — para seguirmos na cartilha freudiana — melhor ainda as crias do Centrão. É esse dengo, com direito a bilu-bilu-teteia e cantigas de ninar, que garante o mandato de um presidente em momento de fraqueza. Não há melhor remédio contra o impeachment, diria o sensível analista gaúcho, do que adicionar novos agrados vitamínicos às mamadeiras federais.

A turma é gulosa, suga governos desde os tempos do Sarney (1985-89), quando passou a ser chamada de Centrão, apesar de ser de direita mesmo. O lema inicial do grupo foi tirado, ironicamente, da oração de São Francisco: “É dando que se recebe”. Que blasfêmia, meu Deus.

O Complexo de Édipo dessa patota com a coisa pública, caríssimo Sigmund, começa cedo e chega fácil à terceira idade. Não importa a coloração ideológica de quem esteja na cadeira do Palácio do Planalto. Muitos deles confundem facilmente o verde com o vermelho, como se fossem daltônicos por muitos e muitos mandatos. Hay governo, estou dentro, desde que não seja apenas por essa conversinha furada de patriotismo, afinal de contas não existe edipianismo sem teta.

*Esse texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.